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 Enquanto vivemos a feliz esperança

O mês de novembro é marcado por duas comemorações litúrgicas cheias de significado: a solenidade de Todos os Santos e a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Essas celebrações católicas revelam muito sobre a antropologia cristã: à luz da fé da Igreja, como entendemos o ser humano, sua existência e sua ação neste mundo e seu futuro?

No Símbolo Apostólico da profissão de fé da Igreja, há algumas afirmações breves que podem ser recordadas nessas ocasiões: “Creio (…) na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna”. Além delas, podemos recordar o que afirmamos em nossa fé a respeito de Jesus Cristo: Filho único de Deus, que se fez homem e nasceu da Virgem Maria, padeceu a cruz, morreu, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos. O que na fé afirmamos sobre Jesus Cristo tem a ver com o ser humano. A constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, ensina que o ser humano só é compreensível à luz de Cristo, único que revela o homem ao homem, qual é sua origem e o sentido de sua vida e de seu futuro.

Na solenidade de Todos os Santos, contemplamos “a multidão de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, vestindo vestes brancas e com palmas na mão, diante do trono do Cordeiro imolado”, cantando em uníssono um grande hino de louvor e ação de graças a Deus Pai e a Cristo Salvador (cf. Ap 7,9-10). E sentimos o desejo de estar com essa multidão feliz um dia. Essa cena é a expressão ideal do céu, da salvação realizada na plenitude, do novo céu e da nova terra, em que “não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor, porque as primeiras coisas terão passado”, porque Deus fará novas todas as coisas (cf. Ap 21,4-5). A festa solene de Todos os Santos nos convida a caminhar perseverantes, na esperança de alcançarmos a salvação em plenitude com todos aqueles que já alcançaram esse objetivo supremo da existência. Ao mesmo tempo, nos convida a sermos praticantes fiéis dos ensinamentos de Jesus Cristo e a cumprirmos generosamente a missão que Deus nos confiou neste mundo.

A comemoração de Todos os Fiéis Defuntos nos confronta com o nosso limite, a brevidade dos nossos dias neste mundo e o mistério da morte corporal. A Igreja recomenda que visitemos, nessa Comemoração, os túmulos dos falecidos, como um válido exercício de nossa fé. Assim, recordamos na oração “todos os irmãos que já partiram desta vida e dormem o sono da paz” (Oração Eucarística). A nossa oração e intercessão por eles, sobretudo oferecendo missa em favor deles, é uma grande caridade para com os que nos precederam na morte. Ao mesmo tempo, nossa visita aos túmulos dos falecidos serve como um choque de realidade para nós mesmos, pois nos recorda de que também nossa vida passa. Nossos dias e horas são preciosos e não sabemos quantos ainda nos serão concedidos. Cada dia é dom e graça de Deus, a ser acolhido com ação de graças e vivido intensamente na prática do bem e na busca de Deus.

Diante do mistério da morte, que levanta muitas interrogações e leva a angústias, qual é a resposta da nossa fé? Antes de tudo, cremos no Deus vivo, Senhor da vida, que não nos chamou para o aniquilamento, mas para a vida plena. Com o justo Jó, arruinado em sua saúde e resistindo à tentação do desespero e de não crer mais em Deus, dizemos também nós: “Eu sei que o meu Redentor vive e que, depois de tudo, ele se levantará sobre o pó (da morte). E nesta minha carne, eu verei a Deus” (cf. Jó 19,25-26). A vida eterna não será criação humana, mas graça de Deus criador e salvador. Se queremos viver para sempre na eternidade feliz, precisamos acolher o Deus da vida e confiar-nos a Ele nesta vida.

A tomada de consciência da finitude e precariedade de nossa vida nos faz pensar na importância de viver bem cada instante da preciosa e frágil vida neste mundo. Viver bem significa permanecer firmes na fé e confiantes em Deus, não se deixando corromper pelas muitas tentações, amando a Deus e ao próximo como Jesus nos ensinou, fazendo o bem a todos, cumprindo os deveres diários, vivendo em paz com todos. O pensamento da morte, portanto, em vez de nos deixar angustiados e prostrados, pode ser motivador para assumir a vida com responsabilidade renovada.

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