O que convém ao cristão?

Muitas pessoas bem-intencionadas perguntam: “Como deve viver o cristão? Por quais princípios devemos orientar nossas decisões e ações?” A mesma questão foi exposta a Jesus pelo homem rico do Evangelho: “O que devo fazer para herdar a vida eterna?” (Lc 18,18). A pergunta faz todo o sentido, pois se refere a escolhas importantes na vida.

Jesus indicou os mandamentos de Deus como caminho para fazer as escolhas certas e “herdar a vida eterna”. E também propôs a todos a via das bem-aventuranças, para alcançar a felicidade eterna; por outro lado, o mandamento do amor a Ele e ao próximo é necessário para ter parte com Ele já neste mundo e na vida eterna. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6) para todos. As respostas e indicações de Jesus continuam valendo para todos nós.

Por vezes, porém, parece difícil encaixar nossas decisões diretamente em algum dos mandamentos e nem a todas as pessoas parecem claros os motivos altos que deveriam orientar nosso agir. Nesses casos, não faltam princípios singelos para nos ajudar nas escolhas e decisões da vida cristã. São Paulo e São João recomendam que os cristãos vivam de acordo com a sua alta dignidade (cf. Rm 8,16; Gl 4,6-7; 1Jo 3,1). No Batismo, o cristão foi acolhido por Deus como filho querido e, portanto, deve comportar-se como tal, cuidando sempre para que suas escolhas e ações sejam agradáveis a Deus e conformes à sua vontade. Diante de decisões a tomar, mesmo as mais difíceis, podemos nos perguntar sempre: “Neste caso, como faria um filho muito querido de Deus? A decisão que estou para tomar é conforme os mandamentos e a vontade de Deus?”

O cristão deve lembrar que Deus é Pai de muitos outros filhos e, portanto, cada filho de Deus faz parte de uma grande família de irmãos. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis (cf. Mt 23,8; 1Jo 4,20-21). Nenhuma ação contra o próximo é boa diante de Deus e, por isso, a prática do mal contra os outros, não importando a quem, deve ser sempre rejeitada, pois também é contrária ao amor de Deus.

São Paulo ainda faz outra recomendação importante, pedindo que os cristãos levem uma vida digna da vocação à qual foram chamados (cf. Ef 4,1) e vivam “de maneira digna de Deus” (1Ts 2,12). A vocação do cristão é a santidade, o que significa viver e agir em comunhão com Deus. É contrário à santidade tudo aquilo que se apresenta claramente como mau e contrário aos mandamentos. O agir do cristão, porém, não pode ser orientado apenas pela renúncia ao mal, mas pela prática do bem. Portanto, cabe-lhe fazer positivamente as escolhas que levem à prática do bem, sobretudo da caridade e da misericórdia. A santidade de vida floresce em todo tipo de obras boas.

Deus não deixa de nos oferecer continuamente a luz da verdade para fazermos as escolhas certas, corrigirmos nossos erros e voltarmos ao bom caminho, que Jesus indicou no Evangelho. Em uma palavra, Ele mesmo é o bom caminho (cf. Jo 14,6) e a luz do mundo. Quem o segue não anda nas trevas e não tropeça (cf. Jo 8,12). Por isso, se queremos acertar em nossas decisões, podemos sempre nos perguntar: “Como Jesus agiria se estivesse em meu lugar? Como decidiria?” Certamente, isso requer de nós um conhecimento sempre maior de Jesus e do Evangelho. A vida cristã, de fato, é um permanente discipulado, e nunca cessamos de aprender com Jesus, nosso Mestre.

A Oração da missa do 15º Domingo do Tempo Comum traz outro princípio precioso para orientar a vida cristã: “Dai aos que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão e abraçar tudo o que é digno desse nome”. Rejeitar aquilo que mancha a dignidade do cristão, que é filho de Deus. E abraçar o que honra a dignidade do cristão.

Nem sempre será fácil fazer escolhas coerentes com a dignidade do cristão. No entanto, essa dignidade possui um valor tão alto, que as escolhas mais difíceis valem a pena para não manchar nem perder a dignidade de filhos de Deus, irmãos de Jesus Cristo, salvos pelo sangue do Filho de Deus derramado por nós sobre a cruz. O caminho da vida cristã não promete ser fácil a ninguém. Ele, no entanto, dignifica muito. Por Ele, também vale a pena abraçar as escolhas mais difíceis.

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