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Por que rezamos pelos falecidos?

Na comemoração dos falecidos (Dia de Finados) deste ano, recordaremos de maneira especial todos os que perderam a vida por causa da pandemia do novo coronavírus (COVID-19). É uma multidão imensa de pessoas queridas, que perdeu a batalha contra o vírus, ainda circulante e a atingir mais pessoas.

Nas missas celebradas nas igrejas ou cemitérios, também faremos a intercessão por todas as demais pessoas, recomendando-as à misericórdia de Deus. A Igreja Católica, baseada na Palavra de Deus, ensina que nossa intercessão pelos falecidos tem valor. Elevamos preces e súplicas a Deus, entregando-lhe aqueles que deixaram este mundo. E a melhor forma de oração é oferecer a Santa Missa pelos falecidos, sacramento do sacrifício de Jesus e do seu sangue derramado por todos, para a remissão dos pecados. Jesus entregou sua vida na cruz e ressuscitou pelos vivos e pelos falecidos, para que todos tenham vida por meio Dele.

Aqui é oportuno esclarecer que a Igreja Católica celebra a Eucaristia “em sufrágio” dos falecidos, ou seja, em favor deles. É frequente ouvir que a missa foi celebrada “em homenagem ao falecido”. Essa não é a linguagem da nossa fé católica. Os católicos não prestam culto aos mortos. A missa é oferecida sempre em homenagem a Deus e “em favor” de alguém, de alguma intenção particular, ou da humanidade inteira e de suas necessidades. No caso dos falecidos, celebramos a missa “em sufrágio” deles, ou seja, em favor deles, como intercessão por eles. As homenagens aos falecidos podem ser feitas por quem quer que seja e sempre que se achar oportuno fazê-lo. Deve-se evitar, porém, a instrumentalização da missa para “fazer homenagem” a quem quer que seja, vivo ou falecido. Seria um desvio de finalidade e uma descaracterização da missa.

A recordação dos falecidos está profundamente enraizada na cultura dos povos e suas religiões, que o fazem de diversas maneiras e com motivações próprias. Tal lembrança e o cultivo de sua memória são fatos significativos para as pessoas, famílias e comunidades, a prescindir da religião, embora isso esteja quase sempre relacionado com convicções religiosas. Recordar os falecidos ajuda a manter o vínculo com a história, feita de pessoas, fatos e memórias. Visitar os túmulos dos falecidos ajuda a se situar na vida e na história e a cultivar um sadio realismo.

Os cristãos, em geral, e os católicos, em particular, têm motivos que decorrem de sua fé e da maneira como compreendem a vida. Nós cremos na ressurreição dos mortos, quando e no modo como Deus o fará. De acordo com a nossa fé, a vida é um dom de Deus e teve início neste mundo, ainda sujeito à precariedade; mas ela está destinada a se plenificar em Deus. Crer na vida eterna decorre diretamente da fé em Deus, Senhor da vida. Ele vive e não nos fez existir apenas para um pouco de vida, mas para nos saciar no banquete da vida eterna. Não haveria nenhum sentido crer em Deus se Ele fosse incapaz de resolver nossa sede de vida para além da nossa morte.

O segundo motivo forte que nos leva a pensar nos falecidos e a recomendá-los a Deus é a nossa fé na vida eterna, firmemente enraizada na Palavra de Deus e nas promessas de Jesus Cristo, Seu Filho. O homem deseja viver e tenta até eternizar sua vida, ainda precária, neste mundo. No entanto, somente possui a vida eterna Aquele que é o Eterno e que nos pode unir a si, para nos fazer viver para sempre. A vida eterna é dom, e não uma realização humana. Isso seria ilusão alienante? Certamente não, como não são ilusão as promessas de Deus. Isso é parte do cerne da nossa fé e até uma exigência da razão humana. A referência à vida eterna acompanha toda a proclamação e celebração de nossa fé, como se pode observar facilmente nas celebrações da Liturgia. Portanto, lembramos os falecidos porque cremos que a vida eterna também é prometida a eles. E pedimos em nossas orações que sejam admitidos ao banquete da vida eterna.

Há um motivo a mais para visitarmos o cemitério e os túmulos dos falecidos: porque isso é profundamente pedagógico e nos ensina a viver bem os preciosos dias de nossa vida. Ao visitar o cemitério, é impossível não pensar que, um dia, quando tivermos cumprido a nossa missão, aquele também será o nosso lugar. Pessimismo? Não, mas é um sadio realismo, que nos ajuda a viver bem. Não querer pensar nisso seria uma grave alienação. A morte faz parte da vida, e o importante é dar um significado à vida e à morte enquanto vivemos.

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