Espiritualidade coletiva: Caminhar juntos

Estavam os discípulos no Cenáculo, no dia de Pentecostes, quando alguma coisa acontece; e recebem o Espírito Santo, encontrando forças para anunciar a Ressurreição de Jesus. Nasce a Igreja nesta experiência comunitária e se inicia o anúncio da mensagem evangélica, a qual vem sendo iluminada ao longo da história pelos carismas e espiritualidades. 

Martírios como grande prova de amor e fidelidade; a virgindade com a entrega a Deus, sinal da escolha totalitária; Santo Antão e a vida eremita; Agostinho; Bento, com os monastérios; Francisco e Domingos, deixando a solidão do mosteiro e passando a viver na cidade, em contato com o povo; Clara e Catarina de Siena. 

Inácio de Loyola e os Exercícios Espirituais, uma nova era para a Igreja; Teresa d’Ávila (“Castelo interior”), João da Cruz; Francisco de Sales; Luís Maria Grignion de Montfort; e Afonso de Ligório e a devoção a Maria. Nos areais de Ubatuba (SP), José de Anchieta escreve o poema dedicado a Virgem Maria. Camilo de Lellis; Vicente de Paulo; João Bosco; Teresa de Calcutá, dentre tantos outros, anunciando as espiritualidades que se ocupam com a saúde, com a miséria do povo e com a educação dos jovens. 

Não obstante toda esta esplêndida história de amor ao próximo que fez o caminhar da Igreja nestes séculos, de um modo ou outro, se manteve uma ênfase à espiritualidade individual. “A Imitação de Cristo”, que foi por longo período o livro de leitura dos cristãos, tinha como máxima: “Quantas vezes estive entre os homens, voltei menos homem... Aquele, pois, que mais se afasta de seus amigos e conhecidos mais consegue que Deus se chegue a ele com seus anjos”. O próximo não era um meio para a santidade, mas um obstáculo. 

Com o Concílio Vaticano II, nos anos de 1960, a Lumen gentium propõe uma “Igreja como sinal e instrumento da unidade de todo gênero humano” (cf. LG 1). Sob muitos aspectos, a Igreja começa a tomar novo rumo em direção a uma espiritualidade sinodal – o de caminhar juntos para a santidade. 

Como sinais dos tempos, surgem na Igreja várias espiritualidades dentro desta nova era proposta pelo Vaticano II. Dentre elas, na década de 1940, nasce com Chiara Lubich, em Trento, ao norte da Itália, uma experiência de espiritualidade coletiva e o carisma da unidade. Com o amor ao próximo como centro da experiência cristã, Chiara e as primeiras companheiras, em meio aos horrores da guerra, se dedicam aos mais pobres e necessitados. O amor recíproco, como pedra angular do Movimento dos Focolares, premissa da espiritualidade centrada na unidade e na vivência da Palavra. 

“Foi logo evidente que com este amor se concretizavam entre nós as palavras de Jesus: ‘Onde dois ou três estão reunidos em meu nome (ou seja, no meu amor), eu estou no meio deles’ (Mt 18,20). Silenciosamente, como irmão invisível, Jesus se havia introduzido no nosso grupo. E agora a fonte do amor e da luz estava lá, em meio a nós. É viver a dinâmica da Trindade na Terra. Eu – o irmão – Deus. Vamos a Deus junto com os irmãos. Unidade é o desejo de Jesus: ‘Que todos sejam um” (Chiara Lubich). 

A espiritualidade coletiva, de comunhão e unidade, nos conduz a caminhar juntos, pois, por meio do irmão, vamos a Deus. O irmão é a via, e não obstáculo, à santidade. 

“Apesar destas sombras densas que não se devem ignorar (...), Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade. A recente pandemia permitiu-nos recuperar e valorizar tantos companheiros e companheiras de viagem que, no medo, reagiram dando a própria vida. (...) ninguém se salva sozinho.” (Fratelli tutti, FT 54.) 

Luiz Antonio Araujo Pierre é membro do Movimento dos Focolares. Professor e advogado. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. 

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