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A Arquidiocese e o tempo de cuidar

A Campanha da Fraternidade deste ano foi lançada um pouco antes do surgimento da pandemia do novo coronavírus no Brasil. E mesmo tendo sido elaborada no primeiro semestre do ano passado, pela ação do Espírito Santo, trouxe uma mensagem apropriada para este momento, pois preconizava um tempo de especial solicitação de cuidado à vida.

Esse cuidado, inerente à fé cristã, manifesta-se como fruto da experiência do amor misericordioso de Deus, o qual permite a uma pessoa romper com a atitude de fechamento em si mesma e se fazer solidária ao “destino do mundo e do ser humano” com “olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs” (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, DGAE, 2019-2023, nº 102-103). Assim sendo, esse cuidado se estende às várias dimensões da vida pessoal, familiar e social.

No entanto, a pandemia impôs à sociedade a emergência relativa ao mais básico para a vida. Os procedimentos para o combate à COVID-19 agravaram a saúde da economia brasileira, com retração nos ganhos, sobretudo da população mais vulnerável, instalada nas periferias ou mesmo nas ruas, como ocorre na cidade de São Paulo. Esta parcela, integrada por um grande número de brasileiros, ganhou visibilidade, notadamente pela ameaça da fome. A providência de Deus se fez sentir na solidariedade de muitos na sociedade.

Na Arquidiocese de São Paulo, mesmo com as dificuldades acarretadas pela ausência das celebrações presenciais, nas quais ocorrem constantes campanhas de arrecadação de gêneros alimentícios e agasalhos, os serviços dos centros sociais paroquiais e de congregações ou institutos religiosos não só continuaram como foram intensificados diante da crescente demanda dos que buscavam auxílio.

A começar pelas paróquias arquidiocesanas (em torno de 300), que se notabilizaram como locais de cuidado pela vida vulnerável e de solidariedade. Entre os meses de março e junho, a distribuição de cestas básicas triplicou, conforme constatou um levantamento nas paróquias da Região Episcopal Belém. Somente na Paróquia São Miguel, na Mooca, Padre Júlio Lancellotti tem cuidado de cerca de 400 desses irmãos por dia. Nessas “Casas de serviço à vida”, porém, a caridade cristã também gera outras iniciativas, como almoços para a população em situação de rua, atendimento de várias solicitações emergenciais e distribuição de roupas e agasalhos. Além disso, há paróquias que abrigam projetos sociais em suas instalações.

A Caritas Arquidiocesana integra os esforços da Ação Solidária Emergencial da Igreja no Brasil, um projeto da Cáritas Nacional e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o slogan: “É tempo de cuidar”. Inspirada nessa proposta, distribuiu, nos primeiros 70 dias da pandemia, 3.500 cestas básicas, 10 mil máscaras e mantém o Lar Santa Maria, em Cotia (SP), para a população em situação de rua, e o Centro de Referência de Refugiados, onde recebe 100 pessoas por semana.

No âmbito da Arquidiocese, ainda há importantes trabalhos desenvolvidos por instituições, como o franciscano Sefras, o qual distribui até 1.500 almoços por dia na Praça da Sé; a Casa de Oração do Povo da Rua, com cerca de 600 atendimentos por dia e mil refeições a pessoas na Cracolândia; membros da Fraternidade O Caminho, a comunidade Mensagem de Paz e vários voluntários; a Aliança de Misericórdia, com a distribuição de café e almoço para cerca de 400 pessoas; a casa São Martinho de Lima, do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, por onde passam diariamente 650 pessoas para higienização e refeição; o Arsenal da Esperança, que atende 1.200 pessoas ao longo de um dia, com refeição e pernoite; a Missão Belém mantém em suas casas, próximas a São Paulo, em torno de 2.200 pessoas para recuperá-las e acolhe por volta de 20 infectados pela COVID-19 por dia em locais de quarentena. Felizmente, a lista não está completa, há muito mais sendo feito, porém as iniciativas citadas permitem vislumbrar o volume dos serviços de cuidado aos pobres da sociedade paulistana pela Igreja Católica.

É importante ainda citar o projeto “Consultório na Rua”, do Bom Parto, em convênio com a Secretaria Municipal da Saúde. Recentemente, com o empenho do secretário, Edson Aparecido, foi ampliado, e agora soma 25 equipes de multiprofissionais e 21 equipes de saúde bucal, sendo que parte desses trabalhadores foi recuperada da situação de rua. Tais equipes percorrem as vias para o cuidado específico da saúde das pessoas que ali permanecem, e realizam entre mil e 1.500 atendimentos por dia.

Com recursos limitados, mas com pessoas despojadas e dedicadas, as estruturas de serviço à vida, instaladas na Arquidiocese de São Paulo, deram uma boa resposta à crise humanitária deste tempo e contribuíram eficazmente no amparo aos irmãos mais vulneráveis desta cidade.

Santa Dulce dos Pobres disse: “O importante é fazer a caridade e não falar de caridade”. A proximidade dos pobres edifica as comunidades eclesiais missionárias, e o Papa Francisco tem reiterado o apelo por uma “Igreja pobre para os pobres”. Que esse testemunho seja um alento para os discípulos missionários da Arquidiocese.

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