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A ‘injustiça’ de Deus

Era um patrão que saiu para contratar empregados para a colheita de sua vinha. Seguindo os costumes da época, saiu pelas praças para contratar os diaristas que ali estavam exatamente para se candidatar aos trabalhos que aparecessem. Passou às seis da manhã, depois às nove, ao meio-dia; depois à tarde, às três horas; e, por fim, às cinco da tarde. Vendo homens parados nesse finzinho do dia, questionou-os sobre o porquê de estarem ali o dia inteiro sem fazer nada. Eles responderam que era porque ninguém os tinha contratado. Parece que tinham sido rejeitados. Não é possível saber. O fato é que o patrão mandou que fossem também eles trabalhar na vinha. 

Curioso é que, na hora de fazer o pagamento da diária, o patrão pagou uma diária completa também àqueles que não chegaram a trabalhar sequer uma hora inteira. Os que foram contratados de manhã, supondo que mereceriam mais do que isso, indignaram-se quando viram que não receberiam senão o valor da diária. O patrão parecia estar fazendo uma grande injustiça. Afinal, quem trabalha mais, merece mais. A questão é que, na verdade, eles não tinham trabalhado mais; trabalharam apenas o combinado e receberam o que o patrão tinha prometido. Porém, pensaram isso por eles mesmos, foram induzidos a erro, foram pretensiosos. 

Interessante essa aparente injustiça! Quem trabalhou quase nada ganhou a mesma coisa que quem tinha trabalhado o dia inteiro. Deus, às vezes, parece injusto. Jesus, que contou essa parábola (cf. Mt 20,1-16), em outra passagem também disse que Deus faz o sol nascer sobre bons e maus e a chuva cair sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45). No fundo, não é o trabalho que conta para Deus. É inútil madrugar para ganhar o pão que Deus oferece a seus amados enquanto dormem (cf. Sl 127,2). Não é que o trabalho não sirva para nada. São Paulo dizia que quem não quer trabalhar também não deve comer (cf. 2Ts 3,10). O próprio Jesus dizia que seu Pai trabalha sempre e Ele também trabalha (cf. Jo 5,17). Mas, o problema é que aqueles homens estavam parados por outra razão, não por vadiagem. Foi por isso que o patrão lhes perguntou por que estavam parados o dia inteiro. E descobriu que não era por vagabundagem. Eles queriam trabalhar, mas não foram contratados. A razão de também ganharem uma diária, como aconteceu com os outros, é que o patrão sabia que aqueles homens precisavam desse pagamento tanto quanto os outros, para poderem levar o sustento para a família. 

A visão do patrão, portanto, estava mais na necessidade do que no merecimento. E, por isso, ele era capaz de ser generoso e de gastar mais para pagar os empregados do que tinha previsto. Os que trabalham menos também podem receber o que precisam porque o patrão é generoso e capaz de olhar por eles. São Paulo declara na Escritura que trabalhava mais do que os outros apóstolos (cf. 1Cor 15,10), mas também afirma ser o menor de todos eles, que não merecia nem ser chamado de Apóstolo porque perseguiu a Igreja de Cristo (cf. 1Cor 15,9). 

É preciso, portanto, compreender que para Deus importa menos o que fazemos do que importa o que somos e, principalmente, importa mais o que deixamos que Deus realize em nossas vidas. Resta-nos, assim, saber que quem é agraciado por Deus não pode e não deve atribuir-se a si mesmo o mérito por aquilo que tem. No fundo, ninguém sai prejudicado porque teve de trabalhar mais nas obras de Deus do que os outros. Na verdade, isso é um privilégio. Feliz de quem conseguiu conhecer e praticar o bem, mais do que os outros, e antes deles. Isso já é uma recompensa. Por isso, devemos sempre pedir a Deus: “Que a bondade do Senhor e nosso Deus repouse sobre nós e nos conduza. Tornai fecundo, ó Senhor, nosso trabalho, fazei dar frutos o labor de nossas mãos!” (Sl 89).

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