Nos últimos tempos, ganha sempre mais valor na Igreja Católica a forma de rezar com a Bíblia, denominada hoje de Lectio divina. Como sugere a própria expressão, é a leitura, a escuta e a assimilação da Palavra de Deus na vida, que leva à oração e à contemplação. A Lectio divina é uma prática e um método de oração, reflexão e contemplação da Palavra de Deus, baseada em quatro passos. O Papa Francisco recorda quais são eles:
“Trata-se, primeiramente, de ler a passagem bíblica com atenção, com ‘obediência’ ao texto, a fim de compreender o que ele significa em si mesmo. Posteriormente, entra-se em diálogo com a Escritura, para que aquelas palavras se tornem um motivo de meditação e oração. Permanecendo sempre fiel ao texto, começo a perguntar-me o que ele ‘diz a mim’. Este é um passo delicado: não devemos resvalar para interpretações subjetivas, mas devemos fazer parte do caminho vivo da Tradição, que une cada um de nós à Sagrada Escritura. O último passo da Lectio divina é a contemplação. Aqui as palavras e os pensamentos dão lugar ao amor, como entre os noivos que por vezes se olham em silêncio. O texto bíblico permanece, mas como um espelho, como um ícone a ser contemplado, e, assim, há diálogo.
Sobre a Lectio divina, o Papa Bento XVI fez a seguinte observação: “Eu gostaria, em especial, de recordar e recomendar a antiga tradição da Lectio divina, a leitura assídua da Sagrada Escritura, acompanhada da oração que traz um diálogo íntimo em que, na leitura, se escuta Deus que fala e, rezando, responde-lhe com confiança a abertura do coração” (16/09/2005). “A Palavra de Deus, impregnada do Espírito Santo, quando é recebida com o coração aberto, não deixa as situações como antes. Muda alguma coisa. Esta é a graça, a força da Palavra de Deus”. (Papa Francisco, 27/01/2021).
Para realizar a Lectio divina, é necessário preparar-se e preparar o ambiente, pedir a iluminação do Espírito Santo. Quanto à leitura, leia, com calma e atenção, um pequeno trecho da Sagrada Escritura. Procure identificar as coisas importantes deste trecho. É importante identificar tudo com calma e atenção, como se estivesse vendo a cena. A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação de espírito.
Quanto à meditação, ela não se detém no exterior, não para na superfície, penetra no interior, perscruta cada aspecto da Palavra, sobre qual versículo me toca o coração. O que esta Palavra está iluminando em minha vida e a realidade em que vivo hoje. Quais são as circunstâncias que ela me leva a questionar e em que me incentiva?
Uma boa meditação nos leva à oração. É o momento de responder a Deus depois de tê-Lo escutado. Esta oração é um momento muito pessoal que diz respeito apenas à pessoa e a Deus. Não se preocupe em preparar palavras, fale o que vai ao coração depois da meditação: se for louvor, louve; se for pedido de perdão, peça perdão; se for necessidade de maior clareza, peça a luz divina; se for cansaço e aridez, peça os dons da fé e esperança. Os momentos anteriores, se feitos com atenção e vontade, determinarão esta oração da qual nasce o compromisso de estar com Deus e fazer a sua vontade.
Quanto ao último passo, a contemplação: desta etapa, a pessoa não é dona. É um momento que pertence a Deus e Sua presença misteriosa. É um momento no qual se permanece em silêncio diante de Deus. É momento de agradecimento. É momento de contemplar Deus presente na história e em nossa vida!
Essa metodologia de leitura da Palavra de Deus tem ajudado muito na concentração e na meditação dos textos sagrados. Favorece uma compreensão mais profunda da Palavra, ajuda a saborear melhor e a vivenciar com mais gosto a mensagem bíblica. Vale a pena experimentar!
Que a Palavra de Deus seja fonte de luz para todos nós. Que ela seja nossa companheira diária a dar sentido ao nosso viver e a nos conduzir ao encontro Daquele que veio como Palavra encarnada, vivendo no meio de nós.




