Amar a Deus no irmão

Estamos nos aproximando do fim de um ano bem diferente, atípico, que muito exigiu de todos nós. Tivemos que mudar e nos adaptar a uma situação nova e desconhecida. Ainda estamos aprendendo a lidar com tudo isso. Neste período, buscamos de muitos modos conservar e alimentar a nossa fé. Não faltou criatividade. A Palavra, sobretudo o Evangelho, nos alimentou a cada dia, em especial nos domingos e demais festas litúrgicas. Percebemos que os textos oferecidos pela liturgia têm revelado certa tensão na relação de Jesus com as autoridades do seu tempo. Durante vários domingos, pudemos acompanhar o conflito entre Jesus e as lideranças representadas pelos fariseus, saduceus, anciãos do povo e doutores da lei. Fazem planos para apanhar Jesus, buscam colocá-lo à prova, elaboram verdadeiras armadilhas. No entanto, em tudo são desmascarados pelas respostas dadas por Jesus. 

Em um desses confrontos, um fariseu pergunta a Jesus qual é o maior mandamento da lei. Eram tantos os mandamentos que a maioria das pessoas os desconhecia e, por isso, não tinha como observá-los. Os fariseus, porém, eram conhecedores das leis e criticavam a maioria do povo, gente simples que desconhecia tais leis. Respondendo à pergunta do fariseu, Jesus diz que a lei maior é o amor. Primeiro amar a Deus com tudo o que existe em nosso ser: com todo o coração, com toda a alma e todo o entendimento. Este tudo compreende até mesmo o que não é bom. É com todo o coração que tem luz e trevas, trigo e joio, terra boa e terra árida. Podemos amar sem medo, não precisamos esconder alguma coisa de Deus. Não precisamos esperar chegar à perfeição e nem ter tudo resolvido na vida para poder amar.

No entanto, Jesus continua a ensinar e diz que o segundo mandamento é semelhante ao primeiro: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Como posso amar a Deus de todo o meu coração, se o meu coração está cheio de outros interesses? O amor a Deus não é verdadeiro se não vem acompanhado do amor ao próximo. Não existe, portanto, como desejavam os fariseus e tantos outros nos dias de hoje, um amor a Deus e outro ao próximo. Santo Agostinho ensina: “O amor a Deus é o primeiro na ordem dos preceitos, o amor ao próximo é o primeiro na ordem da práxis. Amando ao teu próximo, tornas puro o teu olhar para poder ver a Deus”. 

Hoje teríamos dificuldades com a pergunta do fariseu e a resposta de Jesus, pois, à semelhança daquele tempo, criamos inúmeras leis para nos sentirmos seguros e inventamos inúmeras orações e devoções para nos sentirmos bem; criamos ritos e novenas para pacificar nossa relação com Deus e nos sentirmos merecedores do prêmio eterno. É um verdadeiro arsenal de coisas piedosas e rituais que de nada valem se não somos capazes de amar. “No meio da densa selva de preceitos e prescrições – dos legalismos de ontem e de hoje –, Jesus faz uma abertura que permite vislumbrar dois semblantes: o rosto de Deus e a face do irmão. Não nos confia duas fórmulas ou preceitos: não se trata de preceitos e fórmulas. Ele confia-nos dois semblantes, aliás, um único rosto, o rosto de Deus que se reflete em numerosos outros rostos, porque na face de cada irmão, especialmente do mais pequenino, frágil, indefeso e necessitado, está presente a imagem do próprio Deus” (Papa Francisco). Dom Pedro Casaldáliga diz: “No final do meu caminho me dirão: E tu, viveste? Amaste? E eu, sem nada dizer, abrirei o coração cheio de nomes”. Um coração que não ama é um coração vazio de Deus e dos seres humanos. “Nosso coração deve ser como uma agenda cheia de nomes, que no final da vida, quando seremos perguntados sobre o amor, nos bastará abrir o coração para que Deus veja cheio de nomes” (Padre Adroaldo). 

É uma mentira dizer que amo a Deus se sou indiferente à dor de muitos que não têm o mínimo para sobreviver, em especial os que passam fome – no Brasil, este número já ultrapassa 10 milhões –, em estado permanente de insegurança alimentar. É o que nos ensina o discípulo amado: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia seu irmão, esse tal é um mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).

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