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Contraposição entre a torre de Babel e Pentecostes

Quando lemos o relato do livro dos Atos dos Apóstolos, entendemos que São Lucas faz uma contraposição entre Pentecostes e Babel. Parece que, nesses episódios bíblicos, Deus oferece à humanidade uma ocasião para corrigir um erro histórico. Tal como, às vezes, percebemos em nossas próprias vidas: Deus permite vivermos uma situação nova, que tem relação com outra ocasião parecida em que erramos, e temos a nítida impressão de que se trata de uma nova chance, uma oportunidade de mostrar que aprendemos com a derrota, que agora somos mais prudentes e vamos nos corrigir. 

Em que consiste o contraste entre as duas situações? Em Babel, as línguas se confundem e ninguém entende mais nada do que os outros falam, enquanto que em Pentecostes todos se entendem perfeitamente, mesmo falando línguas diferentes. A explicação está no propósito dos construtores da torre: “Vamos, disseram, construamos para nós uma cidade e uma torre cujo cume atinja o céu. Conquistemos para nós um nome, a fim de não sermos dispersados sobre toda a superfície da terra” (Gn 11,4). Aqui está o motivo: “Conquistemos para nós um nome”. Na realidade, deveriam dizer: “Conquistemos para nós um Deus!” 

Em Pentecostes, no entanto, cada um fala na sua própria língua e todos entendem em seu idioma natal, porque eles “proclamam as grandes obras de Deus” (At 2,11). Não proclamam a si mesmos, mas exaltam as maravilhas de Deus. Os Apóstolos se converteram completamente: não mais discutem entre si para saber quem é o maior, porque estão inebriados com a Glória de Deus, manifestada nas teofanias do Céu que recaem em Pentecostes. Este é o segredo daquela conversão em massa de 3 mil pessoas: sentiram como se seu coração estivesse perpassado pelo Amor do Deus três vezes Santo, ou seja, o Espírito Santo atuava diretamente naquelas almas, precisamente porque os seus dons foram derramados em seus corações. 

Inicialmente, pensava-se que os construtores de Babel eram pessoas infiéis que estavam contra Deus e, por isso, pretendiam desafiá-Lo. Mas não era exatamente assim: os construtores da torre de Babel eram homens piedosos e religiosos. A torre que pretendiam construir era, na realidade, um templo para a divindade. O seu pecado consistiu em que desejavam construir um templo para conquistar um nome, para a sua glória pessoal e não para adorar a Deus. Os Apóstolos, ao contrário, são dóceis à ação da graça e, ao receberem a plenitude do Espírito Santo, se convertem e passam a ser outras pessoas. A partir do dia em que recebem o dom do Espírito Santo, ficam totalmente transformados. Nota-se em suas vidas que se deixaram levar com docilidade pelo Espírito Santo. Realizaram uma tarefa imensamente superior às suas forças: a evangelização do mundo então conhecido. Evidentemente, há de se ressaltar que receberam dons e graças especiais, que poderíamos chamar graças fundacionais, para realizarem a expansão da Igreja em todas as nações. Eram graças relacionadas à missão recebida de Jesus para expandir a evangelização da Igreja em todas as nações. Vemos claramente isso quando São Pedro começou a falar e proclamar palavras de sabedoria que tocavam o coração das pessoas e mostravam sua erudição e domínio das Escrituras. Isso se nota tanto nos primeiros discursos quanto, especialmente, nas suas epístolas. Além disso, ele e os demais realizam milagres frequentes, invocando o nome de Jesus. 

Durante estes dias do decenário do Espírito Santo, em que preparamos a festa de Pentecostes, podemos dedicar-nos a meditar esse mistério e a pedir a Deus Espírito Santo que venha tomar posse dos nossos corações e nos conceda os seus sete dons. 

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