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Tudo tem seu tempo

Há uma ilusão bastante comum em nossos dias: acreditar que somos donos do próprio tempo. Organizamos agendas, estabelecemos metas e tentamos controlar cada detalhe da vida, como se tudo dependesse exclusivamente de nossa vontade. Entretanto, basta um imprevisto, uma despedida ou uma mudança inesperada para percebermos que não temos o domínio de tudo. Podemos assumir a responsabilidade pelo momento que vivemos, mas o tempo, em sua profundidade, pertence a Deus.

O livro do Eclesiastes nos recorda: “Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para cada coisa debaixo do céu” (Ecl 3,1). Essa sabedoria não nos convida à passividade, mas à confiança. Há tempo de plantar e colher, de falar e silenciar, de partir e permanecer, de chorar e sorrir. A maturidade consiste em discernir o que cada tempo nos pede, sem permitir que a pressa nos impeça de escutar a voz de Deus.

Santo Afonso Maria de Ligório compreendia o tempo como um grande dom divino. No entanto, quantas vezes o desperdiçamos alimentando ressentimentos, revivendo situações que não podemos modificar ou sofrendo antecipadamente por acontecimentos que talvez nunca cheguem! O tempo é precioso porque é nesta vida que podemos amar, servir, perdoar e fazer o bem. Cada dia recebido é uma oportunidade que não volta da mesma maneira.

É importante distinguir o chronos, tempo cronológico, medido pelos relógios e calendários, do kairós, tempo oportuno, carregado de significado e aberto à graça de Deus. Não se trata apenas de contar minutos, mas de perceber a vida que acontece dentro deles. Santo Agostinho, nas Confissões, medita sobre o mistério do tempo e nos ajuda a compreender a importância de viver o presente com profundidade, entre a memória do passado e a expectativa do futuro.

Viver preso ao passado pode nos aprisionar à culpa, à saudade e às feridas; viver permanentemente preocupado com o futuro pode alimentar a ansiedade e roubar a serenidade do presente. Isso não significa esquecer nossa história ou deixar de planejar o amanhã, mas reconhecer que nenhum dos dois pode substituir o único tempo que efetivamente temos: o agora.

O Papa Leão XIV, ao aconselhar um jovem inquieto, recordou a importância de não querer compreender tudo de uma só vez. O tempo pode ser um mestre paciente e contribuir para curar feridas. A oração, a escuta da Palavra, a celebração dos sacramentos e a convivência com pessoas sábias nos ajudam a discernir os caminhos. Há respostas que não nascem da pressa, mas da paciência, da escuta e da confiança.

Ai de quem se ilude pensando que é dono do próprio tempo! A vida não está inteiramente em nossas mãos, mas isso não nos condena à insegurança. Pelo contrário, abre-nos à esperança. Se o tempo pertence a Deus, podemos atravessar até mesmo os períodos de incerteza confiando que não caminhamos sozinhos.

Talvez não possamos escolher tudo o que nos acontece, mas podemos escolher como viver o momento que nos foi confiado. Hoje é tempo de amar, reconciliar-se, servir, recomeçar e agradecer. Não precisamos ter todas as respostas para dar o próximo passo.

O tempo é dom, não propriedade. Cabe-nos recebê-lo com gratidão, vivê-lo com responsabilidade e entregá-lo a Deus com confiança. Não somos senhores do amanhã, mas podemos fazer do presente um lugar de encontro com Ele. Quem aprende a viver o hoje na presença de Deus descobre que a esperança não consiste em controlar o futuro, mas em confiar naquele que sustenta todos os tempos.

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