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Fratelli tutti e os desafios de nosso tempo – Um alerta que se repete

Tanto o Papa Francisco quanto seus antecessores, em momentos críticos da História, viram-se na necessidade de escrever encíclicas sociais proclamando o valor da solidariedade.

“O princípio, que hoje designamos de solidariedade, e cuja validade, quer na ordem interna de cada nação, quer na ordem internacional, sublinhei na Sollicitudo rei socialis (SRS), apresenta-se como um dos princípios basilares da concepção cristã da organização social e política. Várias vezes Leão XIII o enuncia, com o nome ‘amizade’, que encontramos já na filosofia grega; desde Pio XI é designado pela expressão mais significativa ‘caridade social’, enquanto Paulo VI, ampliando o conceito na linha das múltiplas dimensões atuais da questão social, falava de ‘civilização do amor’” (São João Paulo II, encíclica Centesimus annus, CA, 10)

A todos os homens de boa vontade incumbe a imensa tarefa de restaurar as relações de convivência humana na base da verdade, justiça, amor e liberdade.

(São João XXIII, encíclica Pacem in terris, PT, 162)

São João XXIII, em 1963, quando a Guerra Fria ameaçava se tornar um conflito nuclear, publicou a encíclica Pacem in terris. Quatro anos depois, às vésperas de 1968, o ano das revoluções, mas também do início da desilusão com as utopias, São Paulo VI publicou a encíclica Populorum progressio (PP), anunciando que o desenvolvimento tinha que chegar a todos, em todas as dimensões de suas vidas, não podendo vir sem solidariedade e inclusão.

São João Paulo II dedica-se ao tema em duas grandes encíclicas sociais, já mencionadas acima: Sollicitudo rei socialis (1987) e Centesimus annus (1991). Escritas no período da queda dos regimes comunistas na Europa, ainda que fizessem referência aos erros do marxismo (CA, 22- 29), tinham uma grande atenção em mostrar a necessidade do sistema capitalista de se organizar em bases solidárias e denunciavam o risco de uma nova ordem econômica que não respeitasse o primado da pessoa sobre a economia (CA, 30-43).

Deste modo, a solidariedade que nós propomos é caminho para a paz e, ao mesmotempo, para o desenvolvimento.

(São Paulo VI, PP, 39)

A crise financeira mundial de 2008 provocou uma nova admoestação papal. Bento XVI se dedica, na encíclica Caritas in veritate (CV), de 2009, a mostrar que a lógica individualista do sistema econômico internacional havia conduzido à crise (CV, 33) e que a solidariedade era o caminho mais rápido para a reconstrução da economia mundial e para alcançarmos o bem comum (CV, 34ss).

Agora, a pandemia veio trazer mais sofrimento a um mundo que ainda mal se recuperou da crise financeira de 2008 e enfrenta, há mais de uma década, uma outra, humanitária, com os migrantes e refugiados. Novamente, com Francisco e a encíclica Fratelli tutti (FT), a Igreja reafirma que a solidariedade é a via de superação das crises e construção de um mundo melhor.

No mundo dividido e perturbado por todas as espécies de conflitos, vai aumentando a convicção de uma interdependência radical e, por conseguinte, da necessidade de uma solidariedade […] emerge progressivamente a ideia de que o bem, ao qual todos somos chamados, e a felicidade, a que aspiramos, não se podem obter sem o esforço e a aplicação de todos, sem exceção, o que implica a renúncia ao próprio egoísmo.

(São João Paulo II, SRS, 26).

A importância da solidariedade, para a Igreja, tem caráter ético. Não se trata apenas, porém, de uma questão moral. A concorrência capitalista é, sem dúvida, um grande motor de desenvolvimento econômico, pois cada um está sendo estimulado continuamente a fazer mais e melhor. Contudo, traz em si grandes limites e perigos, causadores de turbulências sociais e crises periódicas.

A competição incessante não permite que os limites do sistema como um todo sejam considerados. Dificulta uma gestão responsável e sustentada do meio ambiente e dos recursos naturais, levando às crises ecológicas com as quais sofremos hoje. Gera, ainda, problemas sistêmicos, que causam crises periódicas na economia de mercado internacional, como a famosa crise de 1929 e a de 2008.

Trata-se, também, de um processo potencialmente excludente. Os que conseguem participar do sistema, empreendedores ou assalariados, podem desfrutar das vantagens de seu crescimento. Aqueles que estão à margem, impossibilitados de se integrar ao sistema pelas mais diversas razões, tendem a ser cada vez mais excluídos – tornam-se “descartáveis”, como lembra Francisco (FT, 18-21). Esses excluídos tornam-se um limite para a expansão do sistema, que não pode contar com eles nem como trabalhadores, nem como consumidores. Além disso, a exclusão origina convulsões sociais e novas crises políticas.

A caridade naverdade […] é a força propulsora principal para overdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor – « caritas » – é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz.

(Bento XVI, CV,1).

A maior parte dos regimes comunistas do mundo não sobreviveu à virada do século XX. Foram derrubados, como na União Soviética, ou sofreram mutações drásticas, como na China. Deixaram de ser, nesse aspecto, uma preocupação da Doutrina Social da Igreja, como haviam sido até o pontificado de São João Paulo II. Contudo, uma certa alternativa capitalista, “liberalista” (SRS, 41), “selvagem” (CA, 8), e a ideologia neoliberal que confia o bem comum à concorrência no mercado (FT, 168) também não lograram o bem que prometiam (Bento XVI, Discurso na Sessão Inaugural da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida, 2007).

Na maior parte dos países, a alternativa que mais tem propiciado o desenvolvimento econômico e social mantém a liberdade de mercado, mas associada a mecanismos solidários, de inclusão social e promoção humana. Igualmente, a cooperação internacional e as políticas multilaterais de intercâmbio entre as nações têm colaborado para construir a paz e diminuir a pobreza, a fome e os desequilíbrios ambientais (CV, 53ss, FT, 128ss). Bento XVI, no Angelus de 23 de setembro de 2007, explica bem a postura da Igreja nessas questões: “A emergência da fome e da ecologia estão a denunciar, com crescente evidência, que a lógica do lucro, se prevalece, incrementa a desproporção entre ricos e pobres e uma exploração arruinadora do planeta. Quando, ao contrário, prevalece a lógica da partilha e da solidariedade, é possível corrigir a rota e orientá-la para um progresso equitativo e equilibrado”.

Francisco, com a Fratelli tutti, dá continuidade a uma onga história de convite à solidariedade e ao compromisso fraterno, estendido a toda a família humana. Cabe a nós, nestes dias de hoje, dar a resposta.

Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade […] Ninguém pode enfrentar avida isoladamente […] precisamos de uma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente.

(Papa Francisco, FT, 8)

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