Graças, pela vida!

O tema do aborto voltou à cena. Não é que tinha saído de cena, mas andava clandestino, sem documento carimbado, a não ser em casos restritos. Agora, porém, há uma proposta para dar papel passado à prática generalizada do aborto até os três meses de gestação. Não será o Congresso Nacional a decidir; lá já houve várias tentativas de fazer passar uma lei que aprovasse o aborto no Brasil, mas não passaram, porque os que devem fazer leis, deputados e senadores, sabem que a maioria do povo brasileiro desaprova o aborto.

A luta para aprovar o aborto deu meia voltinha no Congresso Nacional, foi para o outro lado do Eixão de Brasília, adentrou as portas do Supremo Tribunal Federal (STF) e colocou nas mãos dos Ministros do Supremo a seguinte questão: será que a proibição do aborto não é contrária à Constituição? Mas nessa se diz claramente que a vida humana, da concepção até à morte natural, é um direito intocável! Seria “legal” deixar de cumprir o que estabelece a Carta Magna sobre esse assunto? Equivale a perguntar: será que está errado o que está escrito na Constituição?

A decisão está na mão e na consciência dos Ministros do STF. O poder de legislar é competência do Congresso Nacional. O STF tem o poder e o dever de interpretar, de modo autêntico, a Constituição e de verificar se as outras leis estão em conformidade com a Constituição. Como não há uma lei que estabeleça a “legalidade” do aborto até à 12ª semana de gestação, o STF não terá ainda a tarefa de conferir a suposta a conformidade com a Constituição de nenhuma lei já existente.

Mas o que fará, então, o STF? Dirá que a Constituição está errada nesse quesito da proteção da vida humana pelo Estado brasileiro? Será que entendi bem? E se for assim, a pergunta é se cabe ao STF mudar a Constituição? Ou deveria simplesmente dizer a quem introduziu a questão no palácio da Suprema Corte que dê meia volta e leve o assunto ao Congresso Nacional, para que deputados e senadores discutam e cumpram o seu papel constitucional de legislar? Está complicado, deu nó no Eixão!

Há muitas percepções e convicções diferentes em relação à questão do aborto e o assunto não pode ser resolvido na base da torcida: quem é contra, quem é a favor. Seria extremamente aviltante para a dignidade do ser humano. Uma coisa é certa: quando se provoca um aborto, está sendo suprimida a vida de um ser humano já existente, não importa que ele ainda esteja em desenvolvimento, em vista do nascimento. Já é gente desde o primeiro instante da concepção e não há como negar isso. Se não fosse um ser humano desde o primeiro instante de sua gestação, ele nunca viria a sê-lo depois.

Só posso agradecer a Deus porque minha mãe não me abortou (ela gerou 13 filhos!). Completando 74 anos de idade, estou feliz por ter sido admitido ao banquete da vida, porque alguém me acolheu com respeito e amor. Pude viver as experiências maravilhosas de uma criança, junto com outras crianças. Bem cedo, aprendi que a vida é a arte da partilha e ninguém é feliz sozinho; que os brinquedos, assim como o alimento, são partilhados; que a grande escola da vida é o convívio familiar. Comecei bem cedo a apreciar a natureza, a distinguir entre uma planta e outra, a gostar de frutas, a brincar com a água… Ainda bem criança, aprendi que Deus é um pai grande e bom, que a vida é presente recebido Dele, que Ele sabe que eu existo, me ama e me conhece pelo nome.

Como foi bom que minha mãe me deixou nascer. Sempre fiquei fascinado ao ver a noite estrelada, o céu azul de inverno no Paraná e a beleza da primavera. Admirava a grandeza do oceano e me extasiava diante da imensidade do universo, da ordem e variedade da natureza e do mistério de cada pessoa. Nada disso eu teria visto e vivido, se não tivesse tido a graça de ver a luz, num certo dia de setembro. Graças a Deus, eu existo e posso desfrutar um pouco do que também faz a alegria das outras pessoas. Muito obrigado, meu Deus, porque vivo! Viver é a grande graça! Viver é bom!

E aprendi que a vida é partilha e ninguém é feliz sozinho; que o amor se paga com amor. A vida é como um projeto colocado em nossas mãos para que, dia a dia, o executemos com dedicação e alegria. Tive a graça de ser sacerdote e de dedicar minha vida ao serviço de Deus e da humanidade. Quantas graças recebi, sem mérito de minha parte, mas somente porque Deus é bom! A vocação é sinal do amor de Deus e, ao mesmo tempo, é missão para desempenhar até o extremo de minhas forças e dos meus dias.

Quantas experiências enriquecedoras na minha vida sacerdotal e episcopal! Posso dizer que sou feliz. Não sem cruzes e angústias na vida; isso também tenho, mas sou feliz e posso dizer com São Paulo: “Eu sei em quem acreditei!” (cf. 2Tm 1,12). Mas, se minha mãe tivesse decidido abortar-me antes de completar 3 meses de gestação? Ela não o fez e me deu a chance de viver essa ventura única, pessoal e irrepetível da vida. Valeu, dona Francisca Wilma! Graças a Deus!

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4 Comentários
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Joaquim Vidigal de Oliveira .
Joaquim Vidigal de Oliveira .
8 meses atrás

Deus é Amor ! Onde existe amor está Deus . Vamos continuar a deixar a Vida existir !!! Queres uma prova , que ao cuidar da Vida ,isto não é Amor ? Sou a favor da Vida !!!

Vera Lucia
Vera Lucia
8 meses atrás

Querido dom Odilo! Gosto tanto de ler seus escritos e sempre meu “O SÃO PAULO “ pois fico sabendo sobre a nossa arquidiocese. Graças à Deus estamos vivos e podendo testemunhar a grande graça de viver. “Eu sei em quem acreditei”🌷🌷

Sebastiana de Lourdes Scandelai da Silva
Sebastiana de Lourdes Scandelai da Silva
8 meses atrás

A sua benção Don Odilo. Eu como Católica Apostólica Romana e totalmente contra o aborto, venho encarecidamente pedir ao senhor
que se posicione contrário ao aborto. Tem que vir a público e dizer que irá descomungar os juízes que votarem a favor da legalização do aborto…
Pra nós Católicos é o mínimo que esperamos do senhor. Que Deus o abençoe🙌🙏🛐📿

Pedro de Souza
Pedro de Souza
8 meses atrás

Sou católico, sou cristão, sou a favor da VIDA!!! Ainda mais de infantes inocentes! Jesus abençoe nossa Igreja!