Imagem pública e ressentimento: do cancelamento ao encontro

Vivemos num mundo cada vez mais “virtual” e mediado pela aparência. As redes sociais nos expõem publicamente sempre. Ao mesmo tempo, o desejo de pertencimento a um grupo e a lógica do politicamente correto vão condicionando o modo como podemos “aparecer” socialmente, para sermos aceitos, para parecermos interessantes, “legais”, respeitáveis, dignos de sermos tratados como iguais pelos outros.

O chamado “cancelamento cultural”, que é a exclusão sistemática da pessoa dos círculos sociais e a censura sistemática a suas opiniões e posições, é o destino para aqueles que se colocam contra a mentalidade hegemônica nesse contexto. A consequência é humanamente compreensível: os canceladores dizem agir em nome do bem e da verdade, os cancelados se dizem perseguidos e injustiçados.

Mesmo entre aqueles mais confortavelmente instalados na cultura atual, já começam a surgir críticas a essa situação. Filmes de ficção descrevem um futuro distópico, em que todas as relações sociais serão determinadas pela aceitação ou cancelamento de cada pessoa (vejam, por exemplo, “Odiados pela Nação”, episódio da série “Black Mirror”, da Netflix). No ano passado, em “Uma carta sobre justiça e debate aberto”, cerca de 150 intelectuais – apesar de condenarem a discriminação racial e as injustiças sociais – consideram que vem acontecendo uma censura ideológica a quem pensa diferente, enfraquecendo a democracia e a liberdade.

Infelizmente, o “cancelamento cultural” sempre esteve presente na sociedade. O surpreendente é quando se percebe que grupos sociais vitimados no passado atuam com as mesmas estratégias de cancelamento cultural sobre outros grupos no presente: a imposição de uma espiral de silêncio de quem pensa de forma diferente das ideologias identitárias, seguida de linchamento público pelas redes sociais. Ao que parece, o que mudou foi o contexto e os instrumentos, não a lógica do uso do poder.

Não se pode – nem se deve – negar que muitas pessoas que se consideram “vítimas de cancelamento” fizeram por merecer. Cometeram erros e pecados que “bradam aos céus”, e a condenação pública é um dever de justiça. Mas o “cancelamento cultural” não pode se tornar um linchamento popular. Não há critério, nem justiça, no linchamento – é apenas um ato de vingança que alimenta uma espiral de violência social e termina causando mais injustiça e sofrimento.

Além disso, o cancelamento tornou-se uma ferramenta útil para calar qualquer dissidência à cultura hegemônica. Numa sociedade que faz um discurso de pluralidade e tolerância, o “cancelamento” é a estratégia adequada para calar as vozes que denunciam as desumanidades que se escondem nos fundamentos da cultura atual.

O magistério do Papa Francisco contrapõe a essa “cultura do cancelamento” uma “cultura do encontro”. Em primeiro lugar, uma cultura na qual buscamos não a aniquilação do outro, mas o diálogo, na qual acreditamos na possibilidade de uma comunhão que supera nossas diferenças e se aponta para um valor maior, que está presente em todo ser humano, amado por Deus.

Os cristãos, em nossa sociedade, muitas vezes se tornam vítimas dessa “cultura do cancelamento”. Mas sua resposta, se querem ser fiéis a Cristo, não pode ser uma defesa raivosa da própria identidade. Ao longo de séculos de Cristianismo, aprendemos que o amor, que acolhe e propõe caminhar juntos em direção à Verdade, é a justa contraposição ao poder que cancela e oprime.

Nesta semana, na reportagem ‘“Cultura do cancelamento’ x ‘cultura do encontro’”, dedicamo-nos a aprofundar tal tema, na perspectiva apresentada pelo Papa Francisco.

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