J. B. Scalabrini, um dos “santos sociais”

J. B. Scalabrini, um dos “santos sociais”, Jornal O São Paulo
Sergio Ricciuto Conte

A boa notícia chegou em meados de maio de 2022. O bem-aventurado João Batista Scalabrini (1839-1905) será canonizado brevemente. Foi o fundador das Congregações dos Missionários e Missionárias de São Carlos (Scalabrinianos). Alguns historiadores batizaram o século XIX de “século do movimento”: movimento de navios, trens, carros, aviões… E de gente, muita gente! As turbulências provocadas pela Revolução Industrial sacudiram o Velho Continente. Entre 60 e 70 milhões de pessoas tiveram que emigrar para os países das Américas. Somente da Itália, onde Scalabrini exerceu as funções de pároco e bispo, saíram mais de 20 milhões de emigrantes.

Junto com outros fundadores e fundadoras de congregações com caráter marcadamente apostólico, os chamados “santos sociais”, Scalabrini soube ler os sinais dos tempos. Acompanhou de perto os debates, polêmicas e atividades ligadas à “questão social” e à “questão migratória”. Empreendeu uma viagem aos Estados Unidos (1901) e outra ao Brasil (1904) para visitar seus conterrâneos. Preocupou-se em procurar missionários e fundar um instituto religioso masculino para trabalhar junto aos migrantes (1887) e outro instituto religioso de missionárias para o mesmo fim (1895). Sem se esquecer do instituto leigo fundado para facilitar o embarque e desembarque dos migrantes.

Scalabrini possuía um “coração maior que a sua diocese”, espalhando-se por onde se dispersavam aqueles que não eram absorvidos pelas fábricas incipientes e tinham que cruzar o oceano. Daí vir a ser chamado de “pai e apóstolo dos migrantes”. De acordo com seu primeiro biógrafo, Padre Giovanni Semeria, era “um símbolo […] um daqueles homens que encarnam em si as aspirações mais profundas de um momento histórico”. Sempre junto com outros “santos sociais”, em particular na segunda metade do século XIX, foi responsável por uma nova sensibilidade social da Igreja para com o contexto de grandes transformações políticas e econômicas. Sensibilidade essa que levaria à publicação da encíclica Rerum novarum, de Leão XIII, em 1891, documento inaugural da Doutrina Social da Igreja.

Scalabrini foi profeta e protagonista de seu tempo. Enquanto profeta, denunciou com veemência os maus agentes da migração como “comerciantes de carne humana”. Ao mesmo tempo, porém, foi capaz de entrever nos fenômenos migratórios um verdadeiro anúncio da Boa-Nova do Evangelho, na exata medida em que os migrantes podem contribuir para o encontro, o diálogo, o intercâmbio e o enriquecimento de distintos povos e culturas. Longe de empobrecer, o confronto das diferenças representa uma forma de depuração de valores que conduz a um recíproco aprendizado. Sem se deixar ser vítimas, o migrante é também artífice de avanços civilizatórios.

Nos escritos e iniciativas de Scalabrini, emerge com força a figura de um protagonista de tempos novos. No empenho com os migrantes e de dentro da própria Igreja, sua obra e vida iluminam o cenário complexo dos desafios daquela época. Por isso, não seria exagero afirmar que Scalabrini, ao lado de outros fundadores e fundadoras do mesmo período, formaram uma espécie de precursores remotos do Concílio Vaticano II. Foram capazes de encarnar o espírito do Concílio, em sua preocupação com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem” (constituição pastoral Gaudium et spes, 1).

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