‘Louco!’ (Lc 12,20)

Fomos criados para possuir e amar a Deus eternamente. O coração humano tem um “espaço” infinito a ser ocupado pelo próprio Senhor. Ainda que não nos demos conta, desejamos um tesouro imenso, aspiramos à beleza suprema, anelamos pela alegria, o prazer, o amor, a posse, a segurança e a paz perfeitos, que somente Ele pode proporcionar. 

Contudo, desde o pecado original, o homem procura preencher esse “espaço” infinito com as criaturas, e aí está a raiz de todos os males! Apegamo-nos desordenadamente a coisas e pessoas. Experimentamos a cobiça, o egoísmo, a sensualidade, o ciúme... Trocamos o Criador pelas criaturas, numa inadvertida idolatria. Por isso, São Paulo exorta: “Fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria” (Cl 3,5). O primeiro Mandamento – amar o Senhor sobre todas as coisas – é, entre todos, o mais violado! 

Nascemos sim para “acumular”, deixar uma marca e uma herança neste mundo; nascemos também para amar e ser “um só” com os demais…Porém, este “acúmulo” e esta união têm em vista a eternidade! Se nos esquecermos disso, cairemos no pecado! O Senhor ensina: “Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam” (Mt 6,20). A grande herança que deixaremos é o auxílio para a salvação eterna dos demais: as obras de misericórdia corporal e espiritual, os sacrifícios, as orações, a fidelidade, a fé, a esperança e o amor. 

Há pessoas que vivem numa evidente avareza. Ambiciosos, colocam o acúmulo de bens acima das pessoas e de Deus. Mesmo que já possuam bens materiais, perdem o sono e a alegria, com medo de reduzir o padrão de vida e o nível social. Esses, quando se dão conta do erro – geralmente após um grande infortúnio pessoal –, lamentam amargamente o tempo, o esforço e o amor desperdiçados. Mas, sempre é tempo de mudar! 

Na maioria dos casos, contudo, a avareza é mais sutil. Insinua-se o desejo de se possuir uma “justificada” segurança e um “merecido” descanso. Assim como o rico do Evangelho, podemos sonhar poder, depois do trabalho duro, dizer a nós mesmos: “Tens uma boa reserva. Descansa, come, bebe, aproveita” (Lc 12,19). Parece até uma atitude razoável. Para quem pensa assim, porém, o Senhor tem duras palavras: “Louco! E para quem ficará o que tu acumulaste?” (Lc 12,20). Jesus, aliás, ensinou-nos a pedir o “pão de cada dia”, confiando na Providência. 

É justo querer dar uma boa condição material à família. No entanto, é loucura pensar que os bens podem nos proteger. Eles nada podem contra o pecado, a morte, a tristeza e a falta de sentido de vida. Aliás, “quem ama o dinheiro nunca se fartará. Quem ama a riqueza não tira dela proveito” (Ecl 5,9). O dinheiro não comprará o resultado de nosso Juízo e não nos acompanhará à sepultura. Que Nossa Senhora nos ajude a encontrar a verdadeira riqueza em Cristo e a usarmos os bens deste mundo com os olhos voltados para o Céu. 

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