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Nem mesmo entre católicos…

A passagem é narrada por dois evangelistas, com algumas poucas diferenças. Lucas e Mateus contam essa história (cf. Lc 7,1-10 e Mt 8,5-13). No momento, refiro-me ao texto de Mateus, no qual um centurião romano se aproxima de Jesus (no texto de Lucas esse encontro não se dá porque o oficial se dirige a Jesus por meio de alguns emissários e não pessoalmente) e lhe diz que tem um criado que está em casa, paralisado e sofrendo muito. Jesus, então, disse: “Vou curá-lo”. Mas, o centurião respondeu: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada! Basta uma palavra tua e meu criado ficará curado; pois também eu sou um homem sob autoridade e tenho soldados sob minhas ordens, e se ordeno a um: ‘Vai!’, ele vai, e a outro: ‘Vem!’, ele vem; e se digo ao meu servo: ‘Faze isto!’, ele o faz”. Ao ouvi-lo, Jesus ficou admirado e disse aos que o estavam seguindo: “Em verdade, vos digo: em ninguém encontrei tanta fé em Israel”.

A primeira admiração da história se dá pela compaixão demonstrada pelo oficial romano. É homem de grande autoridade, mas se preocupa com os que lhe servem. Um criado sofredor provoca nele a iniciativa de ir até Jesus. O centurião era pagão e, além disso, era uma autoridade romana. Não parece que sua atitude fosse uma coisa tão comum e esperada. Contudo, a admiração destacada por Jesus estava no fato de que aquele homem reconheceu nele uma autoridade superior aos poderes humanos. Ele se colocou com humildade na intercessão por seu criado e na confiança plena de que Jesus podia realizar aquela cura, valendo-se unicamente de sua autoridade de homem de Deus.

Não pude não recordar, a partir dessa bela passagem, o dia em que fui chamado por um paroquiano, há muitos anos, para ir com ele visitar sua mãe que estava internada em um hospital, já em condições terminais de vida. Era idosa e, pelo avanço da doença, já não tinha reações percebidas por quem a visitava. Quando cheguei ao hospital, tratava-se de internação na enfermaria. Havia várias outras senhoras no mesmo quarto. Fiquei um pouco preocupado em incomodar as demais mulheres internadas, e procurei entrar sem fazer alarde. Cumprimentei-as discretamente, pedi licença e fui ao leito da senhora que eu estava visitando, acompanhado de seu filho que me pedira para levar a Unção dos Enfermos.

Talvez tenha ficado ainda mais preocupado porque bem ao lado do leito daquela senhora estava uma mulher que, pela sua aparência, postura e seus longos cabelos parecia certamente para mim tratar-se de uma pessoa evangélica, daquelas mais tradicionais. Eu deveria dar a Unção dos Enfermos à doente bem próxima do seu leito. E essa senhora, diferentemente daquela por quem eu rezaria, estava muito lúcida e desperta, sentada na cama, mas não como quem estava prostrada; sentava-se com pés para fora do leito. Quando terminei a oração, ao despedir-me, fui abordado por aquela senhora sentada ao lado. Ela me disse: “O senhor é padre?” Respondi que sim. Ela, então, me disse: “Eu sou evangélica. Mas, o senhor me desculpe pelo que vou dizer: O senhor não pode entrar aqui desse jeito, tão timidamente! O senhor é um servo de Deus e deve se apresentar com coragem e testemunhar a sua fé sem nenhum constrangimento!”

Ouvi atentamente o que ela me dizia e senti um misto de alegria e vergonha. Sua palavra me consolou e me fez sentir a grandeza do que eu estava fazendo. Pensei, porém, que meu respeito humano, na verdade, escondia um tanto de covardia ou de vergonha. Não pensei que fosse ouvir isso de uma senhora evangélica. Ela parecia ter mais noção da grandeza do meu ministério do que eu mesmo que era o padre. A mulher parecia ter a fé do centurião!

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