O clericalismo e a cidadania

O laicismo – a tentativa de excluir Deus da esfera pública, tratando a religião como dimensão meramente privada – é um problema muito presente nos dias atuais, que apequena o debate público. Mas há um outro frequente problema que também incide sobre o exercício da cidadania dos cristãos: o clericalismo. Trata-se de uma compreensão equivocada sobre a distribuição das responsabilidades de cada um, cujas origens estão relacionadas com uma percepção distorcida da própria identidade cristã. 

O clericalismo a que aqui nos referimos é o entendimento de que a defesa dos valores cristãos na vida pública deve ser feita prioritariamente pelos bispos, padres e religiosos. Os cristãos leigos deveriam ficar a cargo de questões mais mundanas. Sob essa lógica, tudo o que se refere à moral e aos valores cristãos deveria ser defendido pelos bispos e religiosos, que, com mais formação filosófica e teológica, teriam mais condições de explicar e argumentar sobre esses temas. 

Dito dessa maneira, parece que é um problema menor, restrito a algumas poucas situações. Na verdade, é um problema enorme – que se não for enfrentado, só tende a piorar com o tempo. Vale lembrar que as grandes questões públicas da sociedade contemporânea têm uma inequívoca dimensão moral: por exemplo, a defesa da vida humana em todas as suas fase o enquadramento jurídico do casamento, a educação das novas gerações, a moralidade pública, a solidariedade com os mais necessitados, o zelo pelo meio ambiente, o respeito e valorização da mulher nas esferas privada e pública, a regulação das relações de trabalho. 

Quais são as principais consequências do clericalismo? A primeira é a distorção da percepção sobre as questões públicas. Quando bispos e religiosos assumem o protagonismo dessas causas – por exemplo, da defesa do nascituro –, transmite-se a ideia de que elas são questões de fé, o que é um equívoco. A proteção da vida do feto não se baseia numa determinada orientação religiosa. É uma questão humana, acessível à compreensão de todos: o feto é um ser vivo da espécie homo sapiens; todo ser humano – independentemente de sua cor, raça, sexo ou grau de desenvolvimento – tem direito à vida; a lei deve proteger a vida de todos, sem discriminações. A condenação do aborto tem, portanto, os mesmos fundamentos que a condenação da tortura e da escravidão. Em todos esses casos, há uma explícita agressão à dignidade da pessoa humana. 

A outra consequência perigosa do clericalismo é a indiferença, o comodismo dos cristãos em relação a temas vitais de uma sociedade. Nas discussões públicas sobre a vida, a família, a sexualidade, a educação etc., são os leigos que têm prioritariamente o dever de atuar. Elas não são causas “religiosas”. Não são causas exclusivas de bispos, padres e freiras. É um erro pensar: “Para isso, já existe a CNBB”; ou, “Posso ficar tranquilo, o bispo da minha diocese irá emitir uma nota pública sobre tal situação”. 

Os cristãos são chamados a ser sal e luz do mundo. Não são alheios ao mundo. Não são – não podem ser – indiferentes às injustiças, às violências, às discriminações e às violações de direitos. Essa indiferença cívica produzida pelo clericalismo é profundamente anticristã. E, vale lembrar, os cristãos não são cidadãos de segunda categoria: têm os mesmos deveres e os mesmos direitos de todos. 

Além disso, quando a defesa dessas causas fica restrita aos bispos e padres, tem-se uma resposta apenas reativa, perante determinados casos. Ou seja, o clericalismo conduz a uma defesa frágil da vida, da família, da dignidade da pessoa humana. Todos esses temas precisam fazer parte da atuação cotidiana dos cristãos, não como mera defesa de ideias, mas como verdadeiro serviço continuado. A causa da vida, por exemplo, não é mero tema de batalha legislativa. Há muitas frentes, possíveis e necessárias, de formação, educação, cuidado, acolhimento, diálogo. 

Não se trata de negar a participação dos bispos e padres na vida pública. São cidadãos como os demais. Menos ainda significa rejeitar sua função indispensável de formação e orientação dos fiéis leigos. A questão do clericalismo é outra: os leigos têm de assumir, livre e apaixonadamente, seu papel na sociedade. Muitos problemas atuais, que tanto preocupam as famílias, adquirirão outra dimensão quando os leigos realizarem a sua parte. São Igreja, e a presença da Igreja – a presença de Cristo – é sempre eficaz. 

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