O grande ausente dos tempos modernos: o silêncio

O mundo de hoje precisa reaprender o silêncio. O silêncio que se experimenta quando se vive no campo e se observa a natureza, o céu, a lua, as estrelas, o rio, as árvores e o seu burburinho, o vento que assobia – o silêncio eloquente que fala com uma voz suave. Esse silêncio preenche, não é vazio. Restaura, endireita, reordena a vida e o instante em que se vive. 

No constante barulho da cidade, na correria da vida cheia de preocupações e afazeres, as pessoas se desumanizam, se esvaziam e se perdem. Não são mais si mesmas, não sabem mais quem são; tornam-se como bolhas vazias – ocupam espaço, mas são ocas por dentro e estouram facilmente. 

Perde-se o rosto e perde-se a si mesmo. A incrementar esse vazio está o uso excessivo das mídias digitais. São estas que estão na base da diminuição do Q.I. e da inteligência das crianças como têm mostrado vários estudos. Estar sempre ligado ao celular, ao computador ou à tevê contribui para um esvaziamento ainda maior. As crianças e os adolescentes se tornam assim, presas fáceis da sociedade de consumo, insatisfeitas, inseguras e violentas. 

Tudo isso é consequência da falta de silêncio. O que é o silêncio? O silêncio é uma suspensão do falar, uma interrupção dos afazeres e do barulho, do contato direto com as pessoas, para viver um momento em que se entra em si, um tempo para conversar com Deus. Este silêncio pode dar medo, mas é só no começo. Se mergulharmos nele, conseguiremos ouvir a voz de Deus (Dt 6,4-7): “Escuta Israel, o Senhor é o nosso Deus. Lembre-se Dele e fale Dele para os seus filhos, quando comeres e quando dormires, quando caminhares pela rua, quando te deitares e quando te levantares”. 

Os momentos de silêncio servem para escutar Deus que nos fala por meio do que está acontecendo fora e dentro de nós. O Espírito de Deus age sempre e é o único que nos pode dar o sentido das coisas e dos eventos. Só a partir do silêncio saberemos o que é justo pensar e como agir. A sabedoria nasce só em quem habita no silêncio. É da experiência do silêncio que nasce a palavra. A palavra se nutre do silêncio, precisa do silêncio. Disse alguém: como a mais luminosa das estrelas tem necessidade da noite para iluminar, a palavra tem necessidade do silêncio para iluminar. 

O silêncio é deixar o espaço ao Outro e ao outro. É fazer o outro ser. É a origem da caridade. O silêncio é aquilo que permite a nudez e a transparência das coisas. É necessário habitar o silêncio para poder gerar e criar ambientes de vida. É o silêncio que impede que a vida seja gasta só com coisas a fazer. É o silêncio que nos ensina a esperança e nos permite viver numa dimensão de excedência e de abundância. Só quem habita o silêncio experimenta a plenitude da vida. E habitar o silêncio significa voltar sempre a ele como à nossa casa.

Ana Lydia Sawaya é professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge (Reino Unido). Foi pesquisadora visitante do Massachusetts Institute of Technology – MIT (Estados Unidos) e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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