O medo da multidão

O medo da multidão
Sergio Ricciuto Conte

Oclocracia. A palavra anda quase esquecida. É o sistema político em que o poder está nas mãos da multidão, da turba. Não é um termo elogioso. Os camisas negras italianos que puseram Mussolini no poder, os nazistas que abriram caminho para Hitler aos murros, oos linchadores de suspeitos de algum crime no sul dos Estados Unidos dos anos 1920 ou em Matupá (MT), no Brasil dos anos 1990, são exemplos da turba. A turba não pensa. Age. Mal e com brutalidade. Só as pessoas, cada uma delas, podem pensar. Os sistemas comunistas que puseram o povo no poder, transformando seus países em prisões – URSS, China, Vietnã, Cuba –, são todos iguais nesse aspecto, só o partido pensava. Leon Trotsky, que acabaria ele próprio assassinado a mand de Stalin, disse, antes de cair em desgraça: “Só podemos estar certos por meio do partido, pois a história não proveu nenhum outro meio de estar certo”.

A automação da vida começou com o tear mecânico, que transformou o trabalho em repetição mecânica e não pensada de tarefas. O operário não operava mais a máquina. A máquina é que impôs seu ritmo ao trabalhador, sob o risco de perder um dedo, um membro ou a vida. Ao longo dos séculos XIX e XX, automatizou-se tudo. Hoje em dia, com a internet, automatizou-se a oclocracia. “O meio é a mensagem”, escreveu nos anos 1960 Marshall McLuhan, teórico da comunicação de massa e católico conservador. A frase não é um elogio. Ela alude ao fato de que a principal mensagem de um novo meio tecnológico de comunicação é ele mesmo. Sua existência e seu funcionamento. Aquilo que impõe. Como o tear. A turba eletrônica das redes sociais eletrônicas exerce o poder da mesma forma que os partidos totalitários ou que as turmas de linchadores: ninguém pensa, só o sistema. De todos, exige-se apenas conformidade. Que evidentemente não implica sinceridade. Não necessariamente todos os que participam de linchamentos, destruição de prédios públicos ou de vitrines de lojas querem mesmo matar alguém ou destruir algo. Temem, frequentemente, a turba tanto quanto a vítima momentânea dela. Nunca se sabe quando a ação automática da turba vai se voltar contra um indivíduo que, até minutos antes, fazia parte dela.

Assim, no totalitarismo politicamente correto vigente, todos temem ser cancelados. Não estamos sob algum ditador. Na verdade, aqueles em posição de liderança, política ou outra, têm tanto medo da turba quanto todo mundo. Talvez mais, por ter mais a perder. Estão em seus cargos não como quem lidera. Estão apenas com medo de ser cancelados.

O problema é que, quem adere à turba, turba se torna. Pouco importa se um alemão que tenha atirado uma pedra na vitrine de uma loja de um judeu na Noite dos Cristais em 1938 fosse um nazista sincero ou estivesse apenas com medo de não parecer diferente dos demais. A loja e o meio de vida de uma família judia foram destruídos do mesmo jeito. Pouco importa se a confissão obtida sob tortura ou medo de represália contra a família de um condenado à morte de Stalin fosse sincera. Ela afirmava pela enésima vez que pensar diferente do partido era mesmo um crime.

Da mesma forma, pouco importa se a adesão de uma autoridade, qualquer autoridade, à novilíngua militante LGBTQ e etc. é sincera ou apenas medo de ser cancelada. Ela consagra a mentira na qual se baseia a teoria de gênero e todas as transversalidades transformadas em instrumento de poder. Não se constrói a paz fugindo da briga ou abandonando a resistência aos poderes deste mundo. Totalitarismos não constroem unidade, apenas transformam as pessoas em massa. Ou turba.

Marcelo Musa Cavallari é escritor, tradutor e jornalista especializado em assuntos internacionais. Traduziu “Os Evangelhos”, para as editoras Ateliê/Mnema, e “O livro da vida”, de Santa Teresa D’Ávila, para a Companhia das Letras, e escreveu “Catolicismo”, para a Editora Bella.

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Comentários

  1. Boa tarde!
    Está bem pego o problema e ele já está mais sério do que se possa imaginar., Atualmente, a grande visada pela turba, lato sensu,, é a Igreja como instituição moralizadora, ou seja, única instituição que tem capacidade de dar rumo sensato, racional para o progresso de uma civilização..
    Unica instituição que tem a chave da psicologia humana trabalhando sobre a vontade, a inteligência e a sensibilidade das pessoas, do ponto de vista natural e lhe dá os Sacramentos para poder equilibrar as desordens das paixões.

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