O que o crescimento evangélico no Brasil tem a nos ensinar

O Papa Francisco tem pedido insistentemente que a Igreja se renove, abrace sem defesas a realidade presente e confie no Espírito Santo que sopra sempre com ventos novos. Acolher com abertura a realidade do estrondoso crescimento evangélico no Brasil, acredito, é parte preponderante da nossa resposta à exortação que o Papa Francisco nos tem feito como Igreja. As estatísticas mostram que os evangélicos devem ultrapassar os católicos a partir de 2032, ou seja, daqui a apenas dez anos, e as duas religiões deverão empatar por 40% do total de fiéis em cada uma em poucos anos. Essa mudança na demografia religiosa começou na década de 1980 e se acentuou a partir da década seguinte. É importante entender bem esse processo.

Estudos relatam que, nesse período, muitos setores da Igreja se preocuparam em enfatizar o discurso social e não tanto o tipicamente religioso e que a libertação do povo oprimido foi canalizada para a formação de partidos políticos de resistência e luta. Acreditava-se que a iniciação eclesial com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) seria bem-sucedida na medida em que o povo se organizasse politicamente. Assim como são inegáveis as contribuições que a Igreja sempre prestou para a melhoria das condições socioeconômicas das populações em condição de pobreza, também são inegáveis as contribuições desse movimento, naquele período específico, para profundas mudanças sociopolíticas em toda a América Latina.

Reduzir o avanço evangélico a uma decorrência apenas da politização das CEBs naquele período não seria justo. Alguns historiadores relatam que o crescimento evangélico aconteceu por diversos motivos e que muitas igrejas evangélicas receberam financiamento de igrejas dos Estados Unidos para promover a chamada “teologia da prosperidade”. O crescimento evangélico, segundo estudos, deu-se por uma forte concentração do poder dos pastores (facilitando a administração das igrejas), a gestão da nova religião nos modelos de negócios, a eficácia proselitista da evangelização pelos meios eletrônicos, a formação acelerada de pastores, a militância religiosa dos leigos, a continuidade cultural com a religiosidade popular e a prestação sistemática do serviço mágico-religioso. Mas o mundo evangélico é variado e, ao lado do que se poderia chamar de igrejas de mercado, há uma realidade que responde bem às necessidades da sociedade atual e que tem muito a ensinar aos católicos.

Um membro de uma CEB uma vez me disse: “Sabemos que sofremos injustiças, nosso salário é muito baixo, a gente tem de trabalhar muito, muita gente adoece. Vamos à missa no domingo e o padre fala sempre dessa realidade pesada. Pelo menos na missa, precisamos respirar um ar diferente, algo que nos dê alívio”. De fato, há várias práticas pastorais que, apesar de serem características da vida católica, nem sempre estão presentes em nossas comunidades hoje em dia: a formação de pequenas comunidades de vida e redes de apoio a toda a família; o cuidado com a pessoa na sua integralidade; o alimentar contínuo da fé a partir da meditação da Bíblia e seu estudo permanente. É importante que as comunidades estejam muito próximas de seus membros, disponíveis, dispostas a ajudar os necessitados, frequentar suas casas e estabelecer relações familiares.

Não há melhor momento do que este do Sínodo universal convocado pelo Papa Francisco para toda a Igreja para rever o modo de estar próximo das pessoas e ajudá-las a encontrar a Cristo em sua realidade cotidiana.

2 comentários em “O que o crescimento evangélico no Brasil tem a nos ensinar”

  1. A Igreja sempre foi dos pobres. Isto vem da necessidade de Caridade (1Cor 13).
    O crescimento do movimento evangélico ligado à política partidária vem mais de uma busca de dominação política pela distorção da Palavra do que por falhas de como o Católico e o Cristão devem se conduzir.
    A Igreja Católica deve dialogar com esta situação e mostrar-se como guardiã de um cristianismo voltado a todos (como deve ser) e não somente aos interesses de poucos.

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  2. Há poucas semanas, numa missa, durante a homilia, ouvi o padre da paróquia dizer algo mais ou menos assim: “Nem vou perguntar a vocês quem é que está fazendo jejum, porque senão vocês vão passar vergonha”. Isso é desencorajador. No entanto, de um padre espera-se encorajamento.
    Este é só um exemplo.

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