O simbolismo da misericórdia

O simbolismo da misericórdia
Sergio Ricciuto Conte

Proceder por analogia, por meio dos sinais e símbolos, permite re-unificar – esta é a função originária do símbolo – a natureza tridimensional da existência cristã, no sentido de que a nossa missão histórico-salvífica em Cristo seja conatural com o discernimento dos “sinais dos tempos”. Mistério-celebração-vida representam o pensamento teológico herdado do movimento litúrgico pela constituição Sacrosanctum concilium no Concílio Vaticano II. Seguindo as diretrizes conciliares, pode-se criar outra tríade, em correspondência com a primeira, na perspectiva de um tempo do culto e da cultura da misericórdia, cujos termos (tempo-culto-cultura) encerram de modo mais imediato uma pedagogia da simbólica cristã. Parte-se, assim, da concepção de tempo da misericórdia, que tem a virtude de destacar o que há de mais específico na história e na economia da salvação: o desígnio de benevolência e misericórdia de Deus associado à dimensão do “tempo”.  

Daí decorrem o culto e a cultura (culto-cultura), já que o primeiro se define como a economia sacramental da salvação e tem caráter eminentemente simbólico: a liturgia é ação simbólica, porque na celebração do mistério cristão este é reapresentado e comunicado pelo Espírito Santo, por meio de sinais e símbolos, cujo “significado deita raízes na obra da criação e na cultura humana” (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1145). Eles tecem de certo modo os eventos bíblicos e histórico-salvíficos, tornados presentes no Memorial do Senhor, no qual se atualiza o plano eterno da salvação. “Nesse sentido o ano litúrgico pertence à categoria dos ‘sinais-símbolos’ [...] ele reúne em si o modo histórico e o sacramental com que Deus realiza a salvação” (“História da Salvação”, Dicionário de Liturgia, org. Domenico Sartore e Achille Triacca, 1984). 

A economia da misericórdia guia toda a história da salvação e, por isso mesmo, o Mistério da Páscoa como mistério da Divina Misericórdia é celebrado no centro do “memorial” do ano litúrgico (cf. “O que é o Domingo da Misericórdia?”, O SÃO PAULO, 20/04/2022). O crescimento da fé pascal na misericórdia de Deus – um sinal dos tempos – harmoniza os polos do simbolismo: a fé restabelece, quanto à interpretação do tempo presente, no nível análogo da cultura da misericórdia, uma relação fundamental com o significado bíblico do “sinal de Jonas”: sinal da misericórdia de Deus na conversão dos pecadores (os habitantes de Nínive) e na ressurreição de Jesus (cf. Mt 12,38-41; 16,1-4; Lc 12,54-57).

O sinal do profeta Jonas como símbolo do tempo [kairótico] da misericórdia é o substrato de duas grandes intuições proféticas de São João XXIII, na convocação e na abertura do Concílio, que determinaram sua índole pastoral (sobretudo na constituição Gaudium et spes): “distinguir os ‘sinais do tempo’ (Mt 16,3)” e “usar a medicina da misericórdia” (respectivamente, Humanae salutis, 25/12/1961, e Discurso, 11/10/1962). Na Gaudium et spes (4 e 11), os sinais dos tempos se tornaram um paradigma da interpretação do mundo atual e a hermenêutica da tríade da misericórdia recupera algo do simbolismo bíblico. A noção de cultura, abrangente e central na GS, deve avançar – aberta ao mistério do tempo – até uma cultura da misericórdia, isto é, reunificada-recapitulada segundo a misericórdia, mas sempre – como ensina J. Gelineau, um mestre do simbolismo cristão – “à luz do sinal de Jonas, única chave simbólica dada aos homens no Cristo morto e ressuscitado, até que ele venha” (“Sinal/Símbolo”, op. cit.).

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