A Economia Solidária e a Economia de Comunhão

A escolha do sistema econômico a ser implantado em um país, que de um certo modo segue uma ‘determinação’ externa, define qual o estilo de vida e o cuidado com que serão atendidos os mais necessitados. Estes modelos econômicos são apresentados como fatos soberano, sobre os quais não cabe discutir e que qualquer situação que os coloque em risco são apontados como fatores de falta de equilíbrio monetário capaz de atingir a todos.

Na verdade, todas estas teorias se aplicam ao sistema financeiro, mas não ao sistema produtivo. Sim, a afirmação é que o sistema produtivo depende de quem tem dinheiro e estes, por sua vez, preferem o sistema financeiro ao produtivo. Fica evidente, então, que partimos de premissas desumanas, pois o capital passa a prevalecer sobre o trabalho e isso não deveria ser aceitável, pois, de fato, não o é. Na Doutrina Social da Igreja este tema é muito claro, muito bem definido, não deixando dúvidas para quem deseja e acredita no bem comum.

Lembramos aqui três propostas de economia que têm o bem comum como centro de suas preocupações.

Paul Singer define a Economia Solidária como modo de produção, cujos princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital, com o cooperativismo e o direito à liberdade individual. Busca dar resposta à incapacidade do capitalismo de integrar em sua economia todos os membros da sociedade desejosos e necessitados de trabalhar. 

A Economia Solidária gerou um movimento social no Brasil a partir de 1980 e seus empreendimentos têm suas raízes no cooperativismo, na relação com os outros, fugindo da mentalidade do homem formado pelo ideário capitalista, na busca incessante de querer sempre mais, que é incompatível com a postura necessária à prática da solidariedade. É, portanto, uma proposta de completa inversão da concepção utilitária da economia, levando a focar nas pessoas como centro do pensamento econômico, pois o lucro desmesurado jamais poderá levar a uma sociedade justa. 

Outra proposta é a de Chiara Lubich – a Economia de Comunhão. Em 1991, após uma visita a São Paulo, vendo o cinturão de pobreza e miséria que circundava a cidade, com seus arranha-céus, mas suas grandes desigualdades e o capital na mão de poucos, explorando a maioria. Para mudar esta realidade, para atuar a Economia de Comunhão, é preciso que as empresas, livremente, compartilhem seus lucros com a comunidade, para ajudar em primeiro lugar aos mais necessitados, oferecendo-lhes trabalho, fazendo com que não haja miséria em nosso meio. Depois, o lucro servirá para desenvolver as próprias empresas e as estruturas que possam formar seres humanos para uma sociedade nova. 

Nesta experiência todos podem se associar, desde as pessoas físicas, ainda que como acionistas com cotas mínimas ou até mesmo jovens, com pequenas iniciativas, que poderiam recolher uma cota para participar de algum empreendimento com estas novas características. Tudo com o objetivo de ajudar a diminuir o abismo entre ricos e pobres e constituir um farol e uma esperança.

“A Economia de Comunhão diz que a empresa deve mudar. Não é tanto apenas se ocupar dos pobres, sem mudar as estruturas econômicas, mas, sim, propor empresas diferentes, que não tenham o lucro como objetivo, que incluam os pobres, para evitar que haja miséria amanhã”, explica o economista italiano Luigino Bruni. Segundo ele, a Economia de Comunhão “é uma proposta mais radical na mudança estrutural do sistema econômico, por meio da mudança da sua principal instituição, que é a empresa”.

Luiz Antonio Araujo Pierre é Membro do Movimento dos Focolares. Professor e advogado. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. 

guest
2 Comentários
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários
Antonio Carlos da Silva
Antonio Carlos da Silva
10 meses atrás

Nesse breve artigo o Pierre, fala sobre a Economia Solidária é um breve aceno à Economia de Comunhão colocando em luz caminhos novos que vem de encontro aos pobres que ficam à margem da sociedade.

Ricardo Zugno
Ricardo Zugno
10 meses atrás

Muito bom artigo. Necessitamos de teorias e práticas de economias mais humanizadas