A importância da ação social para os jovens brasileiros

A importância da ação social para os jovens brasileiros
Sergio Ricciuto Conte

Há uma atitude e um modo de ver característicos da cultura brasileira que vêm desde o início do descobrimento do Brasil e permanecem praticamente invariáveis. Diz respeito à cultura escravocrata e extrativista que determinou a história do País, assim como tem a ver com a imensa desigualdade social que grassa em nossa nação, na qual 90% da população está em situação de pobreza e só 10% tem uma condição adequada de vida, escolaridade e emprego.

Esta atitude pode ser resumida assim: “falta de engajamento social”; ou, em outras palavras, “me movo e faço tudo para conquistar o que é bom para mim e para a minha família”. Uma cultura alternativa como, por exemplo, a norte-americana ou a judaica, diz e age assim: “Pertenço a um povo, do qual me orgulho e me sinto chamado a ajudar a construir”.

A atitude “do que é bom para mim e para a minha família” está presente em todas as esferas sociais, tanto entre os ricos quanto entre os que vivem em condição de pobreza. Está presente nas empresas brasileiras, cujos empresários são reconhecidos mundialmente por serem os que mais retiram dos lucros os gastos pessoais e os de sua família, e menos investem para aprimorar a própria empresa; em todos os partidos políticos com a prática corrente de se mover para garantir benefícios pessoais, para o próprio partido e a sua manutenção no poder a qualquer preço; no uso e na exploração da terra, das florestas, dos rios e dos mares brasileiros; nos sindicatos que visam, quase que exclusivamente, ao benefício dos seus sindicalizados, muitas vezes em detrimento do País; no funcionalismo público e na enorme distância das leis que regem a iniciativa privada; e em muitas leis brasileiras.

Em síntese, “o que é bom para mim e para a minha família” é basilar e representa uma cultura profundamente arraigada na mentalidade dos brasileiros e que determina o modo de agir geral. O que fazer? A solução é bem conhecida e os estudiosos chamam de “necessidade de engajamento social”. De fato, muitos estudos comparativos entre diversas culturas e países mostram que uma mudança real dificilmente ou quase nunca vem de cima para baixo, mas, ao contrário, acontece de baixo para cima. Quer dizer, uma mudança cultural real acontece quando se muda o “tecido social”. Este, como o nome já diz, é algo que precisa ser tecido por todos, sobretudo pelas novas gerações. Assim, é o engajamento dos jovens em ações sociais para o bem comum que pode mudar essa mentalidade e cultura. Só a experiência real, de cada jovem, de se doar e realizar ações sociais para construir o país terá capacidade para reverter tal cultura. E isso significa todos os jovens e não alguns ou um pequeno grupo. Para isso, é fundamental introduzir no currículo escolar, já desde o Ensino Médio, atividades de ação social como parte integrante da formação curricular; e nas universidades desenvolver projetos de extensão universitária que integrem o currículo normal.

Ana Lydia Sawaya é professora da Unifesp e doutora em Nutrição pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Foi pesquisadora visitante do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

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