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Aprendendo com o passado

No início do ano, costumamos fazer uma revisão do passado e nos dispomos para um futuro mais esperançoso. Uma revisão que pode nos ajudar na caminhada, mas infelizmente pode também ser francamente desviante. Todos os anos temos a mesma cantilena. Anunciam-se Natal, Ano Novo com os mesmos clichês. A previsibilidade, a redundância é tal que nem precisamos ler, ouvir ou ver o que se publica. Um brinde do mais do mesmo. O tempo é escasso, não vale a pena nos ocupar com irrelevâncias. Somos abastecidos com a orgia dos números. Como se a quantidade necessariamente alterasse a qualidade. 

O assunto é longo. Mas gostaria de chamar a atenção para o que se vem chamando de retrospectiva. A seleção e numeração de fatos poderia ser seguida de avaliações com competência e dignidade, sem precisar imitar um álbum de figurinhas ou uma fogueira de vaidades dos mais famosos, dos mais bem pagos. 

O que mais preocupa, porém, é a concepção de história que sustenta o palavreado e as imagens (nada como um bom e rendoso arquivo morto), a partir de um cenário glamouroso em que até as catástrofes são recordadas com um sorriso. Nessa concepção de história, tudo parte de cima, uma pirâmide sem base: as guerras, as concentrações da riqueza, a corrupção, o grandioso para esconder o pequeno. Não existe África, parece que ali não há vida, não aconteceu nada; não existe vida operária, sindical, voluntariado, conquistas espaciais que estão revelando um universo desconhecido; esqueceram-se até do agronegócio, que repetidamente se diz ser o motor da economia. 

Gravíssima a omissão dos fatos relevantes do mundo educacional e sanitário, revelando o descaso com parte substantiva de nossa realidade. Todos os anos os institutos especializados anunciam quantos morrerão de fome, de câncer etc. E sabemos que isso não é fruto do acaso, muitas vezes é consequência de planejamento obsceno. É claro que não podemos ignorar os fatos ruidosos. Mas seria pedir demais que se atentasse para o que vai além das lantejoulas, dos ouropéis, do coruscante? 

Trata-se de uma visão fundamentalista da história, que não discerne o âmago dos acontecimentos, nivelada ao que há de mais retrógrado e violento. Sem precisar ir longe, será que não houve nada de significativo entre as professoras e professores do Brasil, aos quais não se costuma dar visibilidade? Dos trabalhadores que, com tão pouca terra, conseguem produzir alimentos abundantes e de qualidade? De comunidades indígenas que lutam pela preservação das florestas brasileiras? De comunidades periféricas inventivas na alfabetização e promoção da cultura? Os exemplos são incontáveis, obviamente para quem desejasse descobrir as forças vivas de uma nação. 

Não posso deixar de assinalar, para concluir estes poucos exemplos, que existe no mundo um dinamismo hoje quase oculto, muitas vezes desdenhado, voltado à instrumentalização ou ao esquecimento dos poderosos, e até perseguido, que são as religiões. Falo de religiões e não de simulacros de religiões. Estão entre as principais gestoras de fatos novos, fecundando os povos com um fermento de vida. De seu seio brotam fatos e processos que ultrapassam os exibicionismos dos big brothers, a fugacidade novelesca, a inconsistência das pirotecnias ideológicas. Elas guardam memórias de um passado não esquecidiço, mas restaurador do tecido da humanidade, pelo perdão e pelo amor, que abriga aquilo que Charles Péguy (1873-1914) chamou de “uma margem do futuro do lado do presente” (ce bord de l’avenir du côté du présent). A memória pagã leva ao esquecimento; a memória cristã conduz ao comprometimento. 

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