Eu, atrapalho…

Ilustração Sergio Ricciuto Conte

Vinte e um de setembro é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. É uma data dedicada a mostrar à sociedade as barreiras enfrentadas por pessoas que nasceram ou adquiriram alguma deficiência durante a vida.

Quando se fala nesses obstáculos, o senso comum vai ao encontro das limitações arquitetônicas, porém as piores barreiras dizem respeito às atitudes. Por exemplo, quando uma autoridade afirma que é necessário separar as crianças com deficiência das crianças sem deficiência, pois uma atrapalha a aprendizagem da outra.

Tal afirmação deixa claro o despreparo e o preconceito diante dessa questão. Indica a motivação, de quem fala, em destruir algo que vem sendo conquistado há décadas, que é o direito que o deficiente tem de se sentir como parte da sociedade.  Felizmente, tais falas vêm sendo condenadas por diversos setores da sociedade. Isso só mostra que o lema adotado pelas pessoas com deficiência, que tem o sentido de valorizar o seu protagonismo no enfrentamento de suas dificuldades – “Nada sobre nós sem nós” -, está ganhando cada vez mais adesão na sociedade civil.

Essas falas, apesar de muito tristes, mostram uma atitude de segregação muito presente em diversos setores da sociedade, dos mais progressistas aos mais conservadores. Por exemplo, como já falado em um artigo, de minha autoria, publicado no blog do movimento Mobilização Artística, no dia 28 de maio de 2021, o mercado publicitário, que na teoria é inclusivo e diverso, na prática tem atitudes segregacionistas muito semelhantes a esta.

Há um mês, fui fazer meu primeiro teste para um comercial – vale lembrar que depois de três anos de agenciamento, sob o argumento de que agora precisam de pessoas com deficiência em algumas peças publicitárias. A grande questão é: só agora a propaganda precisa de pessoas com deficiência? Isso significa que logo não precisará mais? Depois deste teste, ofereci à agência um compilado de artistas com deficiência para os próximos trabalhos. A princípio eles se interessaram; no entanto, falaram “mande seus amigos procurarem o site da agência e se inscreverem e, quem sabe um dia (depois de três anos), serão chamados”.

Como se verifica neste discurso, a publicidade, ainda que diga o contrário, trabalha meramente na lógica do mercado e não na lógica da inclusão. No caso, a deficiência é vista como um mero produto para vender uma marca. A propaganda só será inclusiva quando se começar a pensar políticas inclusivas dentro do mainstream. Do contrário, artistas com deficiência estarão nadando contra a maré.

No próximo ano, a Campanha da Fraternidade terá como tema a Educação. Essa temática precisa de um amplo debate. É necessário evitar levantar pautas marginais, que pouco agregam à educação, para falar de temas centrais. Por exemplo, como incluir crianças com deficiência em uma escola. Temática importante, que une a sociedade em torno do bem comum e só agregará ao debate e à Campanha da Fraternidade do ano que vem.

Arthur Acosta Baldin é ator e professor de Teatro, com ênfase em Arte e Deficiência.

Comentários

  1. Muito boa e clara a matéria!parabéns por sensibilizar a nossa sociedade para estes aspectos importantes que atigem a todos nós, portadores ou não de deficiências.Obrigada

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