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Não faltou nem amor nem dinheiro…

Nunca se falou tanto, no Brasil, em proteger crianças e adolescentes: discute-se o tempo de tela, a regulação das plataformas digitais, a ansiedade e a depressão que crescem entre os jovens. São preocupações justas e necessárias. Há uma pergunta, porém, que quase não aparece nesses debates: o que dá sentido à vida de uma criança?

Há relativamente pouco tempo, a mãe de um jovem adolescente que invadiu uma escola, sob a influência de grupos extremistas na internet, declarou: “Eu achava que não faltava nada para o meu filho. Não faltou amor, não faltou dinheiro, não faltou oportunidade. Não vou falar que falhei, porque eu não provoquei, não instiguei, não patrocinei nada do que ele fez, mas talvez tenha faltado mais a questão de Deus, de religiosidade, empatia”.

Podemos imaginar a profunda dor dessa mãe! Os estudiosos dizem que estamos em uma sociedade disfuncional, na qual a violência em todos os âmbitos só cresce. O que fazer? Mais psicólogos, mais psiquiatras? Medicalizar as crianças? Embora tudo isso seja claramente uma ajuda em muitos casos, temos nas palavras dessa mãe uma resposta precisa: faltou um sentido profundo para a vida; não só dinheiro e amor, faltou Deus.

O ser humano não tem saída: foi feito por Deus e para Deus. Sem Deus, nada funciona, mesmo que a descoberta demore um pouco, enquanto se acumulam os desastres… Como dizia o escritor inglês G. K. Chesterton (que denunciou essa disfuncionalidade já no início do século XX): “De acordo com o Cristianismo, somos, de fato, os sobreviventes de um naufrágio, a tripulação de um navio dourado que se afundou antes do começo do mundo […] Todo o otimismo de nossa época é falso e desencorajador por sempre tentar provar que nos encaixamos no mundo. O otimismo cristão se baseia no fato de que não nos encaixamos no mundo” (cf. Ortodoxia, editora Ecclesiae, 2018 p.101-102). Podemos dizer em outras palavras: “Nada no mundo ou do mundo nos basta, nem o amor puramente humano, menos ainda o dinheiro e o bem-estar.” O resultado gritante e profético dessa disfuncio-nalidade já cantava a banda Legião Urbana: “Há tempos são os jovens que adoecem”.

O que fazer? Voltar ao caminho certo, como obrigatoriamente acontece quando pegamos uma estrada errada. E o caminho certo, como nos tem dito o Papa Leão XIV, é trazer Deus para dentro da família: rezar com as crianças antes de dormir, antes de comer; contar a elas sobre Deus; ler as leituras da Bíblia juntos; rezar o Terço em família; confessar-se; oferecer-lhes bons livros; ver bons filmes. O que conta para as crianças são os gestos simples, mas reais, feitos com o coração. Deus precisa voltar a habitar em nossa casa. E nós precisamos abrir-Lhe as portas.

Nas palavras de Leão XIV, em sua Mensagem aos participantes do seminário do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida (2025): “Não vos deixeis desanimar pelas situações difíceis com que vos deparardes. É verdade que hoje os núcleos familiares são feridos de muitas maneiras, mas ‘o Evangelho da família nutre também as sementes que ainda estão à espera de se desenvolver e deve cuidar das árvores que perderam vitalidade e que não podem ser transcuradas’ (Francisco, Amoris laetitia, AL 76). Por isso, há tanta necessidade de promover o encontro com a ternura de Deus, que valoriza e ama a história de cada um”.

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