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Os desafios das novas gerações para a aposentadoria 

Até recentemente, a aposentadoria representava o encerramento natural de uma vida de trabalho. Trabalhava-se por décadas em uma mesma empresa, contribuía-se regularmente para o sistema previdenciário e, ao fim, recebia-se um benefício capaz de garantir tranquilidade e dignidade. 

Hoje, essa realidade mudou – e de forma profunda. As novas gerações crescem em um mundo de transformações rápidas, carreiras fragmentadas e vínculos flexíveis. O sonho da aposentadoria segura parece, para muitos, algo distante ou até improvável. 

O tema, porém, vai muito além das finanças. Planejar o futuro é também uma questão social, ética e espiritual. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em poucos anos o Brasil terá mais idosos do que jovens. Isso significa que menos pessoas irão contribuir para sustentar um número crescente de aposentados. O sistema público, baseado na solidariedade entre gerações, sofre pressão: há menos arrecadação e mais despesas. E as reformas previdenciárias, embora necessárias, não bastam. O verdadeiro desafio é reconstruir o pacto entre as gerações, equilibrando direitos, deveres e sustentabilidade. 

O avanço da tecnologia e o surgimento da economia de aplicativos transformaram profundamente a forma de trabalhar. Milhões de jovens hoje atuam como autônomos ou microempreendedores. A chamada “uberização” trouxe flexibilidade e autonomia, mas também fragilidade previdenciária. Sem vínculos formais, muitos deixam de contribuir regularmente para a previdência pública. O resultado é uma geração produtiva, mas sem garantias no futuro. Nesse contexto, cresce a importância da educação financeira e da consciência previdenciária. Planejar a aposentadoria não é apenas uma questão técnica, mas um exercício de prudência. Pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros não tem o hábito de poupar nem entende como funciona o sistema previdenciário. 

Começar cedo, mesmo com valores pequenos, faz toda a diferença. A previdência complementar, os investimentos de longo prazo e o consumo consciente são ferramentas que permitem construir liberdade e segurança para o futuro. Cumpre ressaltar: o Estado continua sendo o principal garantidor da proteção social – cabe-lhe assegurar que ninguém envelheça em situação de abandono. No entanto, o poder público não pode agir sozinho. As empresas têm papel decisivo ao oferecer planos de previdência, programas de educação financeira e políticas de bem-estar que integrem trabalho e vida familiar. A sociedade, por sua vez, deve cobrar transparência e responsabilidade dos gestores públicos. 

A Doutrina Social da Igreja convida a olhar o tema da aposentadoria sob um prisma humano e espiritual. Para ela, a previdência é expressão da solidariedade entre gerações e instrumento de justiça social. Karol Wojtyła ensina que o trabalho é uma vocação – uma forma de colaborar com a criação divina e servir à comunidade. Por isso, o tempo da aposentadoria não é um “fim”, mas o reconhecimento de uma vida de contribuição. Nesse sentido, a previdência é um dever coletivo: os jovens sustentam os idosos de hoje, e um dia serão sustentados pelos que virão depois. Esse laço invisível entre gerações é o coração do princípio da solidariedade. 

A previdência, nesse sentido, não deve ser vista apenas como um cálculo financeiro, mas como expressão de prudência, fraternidade e esperança. Cuidar da própria velhice é também cuidar da justiça e do bem comum – formando, assim, dois pilares cristãos que iluminam o debate previdenciário: solidariedade, que exige que os mais fortes amparem os mais fracos, e que cada geração apoie a outra; subsidiariedade, que defende que o Estado garanta o essencial, mas que famílias, comunidades e instituições colaborem ativamente “…pois ninguém se salva sozinho”. 

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