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Sobre o terrorismo que destruiu templos católicos no Chile

Sobre o terrorismo que destruiu templos católicos no Chile
Sergio Ricciuto Conte

Acordei com as cenas de uma igreja chilena ardendo em chamas. Em nome de ideologias, jovens terroristas punham fogo ao espaço sagrado, profanavam a beleza, queimavam a História, destruindo o que o esforço e os recursos dos fiéis construíram para a maior glória de Deus. Isso me causou, ao mesmo tempo, tristeza, dor, angústia, revolta.

Fundada nas Sagradas Escrituras, a Igreja construiu a civilização ocidental. E isso não é afirmação de fé, mas fato histórico. Ao difundir a fé herdada dos apóstolos, depositária absoluta, redesenhou o mundo, preenchendo o vácuo deixado pelo Império Romano, que caía; manteve a Filosofia Grega; aproveitou o Direito Romano; desenvolveu o método científico; fundou escolas, universidades e hospitais. Promoveu a caridade; valorizou o conhecimento; patrocinou as Artes e a Arquitetura. Deu-nos até o calendário que usamos. Sem ela, ninguém conheceria as Sagradas Escrituras e muitos não conheceriam o Cristo.

Hoje, cheio de ingratidão, o mundo ocidental lhe cospe à face, voltado contra Deus, com os mais fundamentais valores desfigurados, quase irreconhecíveis. Tudo por um ódio do que se pensa ter sido a Igreja. Um erro de percepção que remonta aos anos de sangue da Revolução Francesa, ou talvez um pouco antes. Ideologias aparentemente opostas acabam se unindo para agredir, moral ou fisicamente, a Igreja. Em parte, por intolerância, em parte por saberem que ela é, no mundo, o dique de contenção do mal, independentemente do nome moderno que lhe atribuam.

Pode-se ter ou não ter fé. Acreditar ou não acreditar em Deus. Gostar ou não gostar da Igreja. O que não se pode é desrespeitá-la, atacá-la, feri-la. Num tempo em que o exagero grita intolerância disto e daquilo, a única permitida, e até incentivada, é a que se exerce contra a Igreja, seus valores e a liberdade dos seus fiéis. O neomartírio é uma realidade. A cristofobia também. Ser cristão (católico) é agonizar. Originalmente, e disto o filósofo espanhol Miguel de Unamuno nos lembra, agonizar significa “lutar”. Lutar é viver. E o cristão é aquele que vive em contínua agonia, em luta permanente contra os inimigos da cruz. 

Estava triste pelo incidente; e um amigo veio me animar com as palavras de um livro de que gosto muito: O leopardo (1958), de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Vinham da parte em que Dom Fabrizio, aristocrata siciliano, que falava ao Padre Pirrone sobre a diferença da aristocracia e da Igreja como instituição, diante dos ataques revolucionários que ambas sofriam na Itália em formação, nos idos de 1860:

“Não somos cegos, caro Padre, somos apenas homens. Vivemos em uma realidade movediça, à qual tentamos nos adaptar assim como as algas se dobram sob o impulso do mar. À Santa Igreja a imortalidade foi prometida explicitamente; a nós, como classe social, não. Para nós, um paliativo que prometa durar cem anos equivale à eternidade. Podemos até nos preocupar com nossos filhos, talvez com nossos netos; mas, para além do que podemos acariciar com nossas mãos, não temos compromissos; e eu não posso me preocupar com os meus eventuais descendentes em 1960. A Igreja, sim, precisa cuidar disso, porque está destinada a não morrer. Em seu desespero, o conforto é implícito”.

Texto consolador e inspirador para este momento, não? E como não lembrar do que nos disse o Senhor a respeito de o inferno jamais prevalecer sobre sua Igreja? As dores de hoje, de ontem e de amanhã são nada diante da certeza do triunfo.

Nem por isso, porém, os católicos devem deixar de reclamar direitos, exigir respeito e defender a fé, a identidade e a dignidade da Igreja. Deus não colocou a Sagrada Família em lugar seguro por um passe de mágica. Mandou o anjo acordar José e pô-lo em marcha com Maria e o Menino Jesus até o Egito. Deus conta com o nosso empenho, com o nosso ardente desejo do sobrenatural no plano natural. Com as armas da fé, da esperança e do amor, temos de rezar pela conversão dos terroristas. Mas ainda exigir justiça e punições rigorosas.

Façamos nossa parte e confiemos no Senhor.

Paulo Henrique Cremoneze, advogado, mestre em Direito Internacional pela Universidade Católica de Santos (SP), especialista em Direito do Seguro pela Universidade de Salamanca, na Espanha, pós-graduado em Especialização Teológica pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora Assunção e vice-presidente da União dos Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp).

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Comentários

  1. Parabéns ao Dr Cremonezze pela lucidez.
    Os absurdos praticados devem ser mensal combatidos com veemência. Lutemos pela fé e pela defesa dos valores divinos!

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