Os jovens, a política e o futuro do Brasil

A China é uma realidade cultural e política muito diferente da nossa, mas um recente artigo sobre a participação política de jovens chineses pode nos ajudar a uma reflexão sobre nosso momento atual aqui no Brasil. 

O autor, Jun Fu, da Universidade de Melbourne, na Austrália, identificou três grupos distintos de jovens, quanto a sua relação com a política. Chamou-os de “jovens raivosos”, “cínicos impotentes” e “idealistas-realistas”. 

O primeiro grupo se identifica por uma relação visceral e agressiva com a política. São jovens que tendem a uma adesão acrítica às próprias posições e à completa negação da posição do outro, ao extremismo ideológico, à intransigência e à falta de diálogo. 

Os cínicos impotentes acreditam que nada irá conseguir mudar o mundo. Sendo assim, o importante é procurar se dar bem nas condições atuais. A postura desses jovens é individualista, acrítica, conformista. 

Os idealistas-realistas querem construir um mundo melhor, mas estão cientes de suas limitações e procuram trabalhar dentro dessas limitações, procurando “fazer a diferença” naquilo que lhes é possível fazer. 

Sem nenhuma preocupação estatística, de saber quem é mais comum e quem é menos comum, podemos assumir que esses três grupos também estão presentes entre os jovens brasileiros de hoje. 

Infelizmente, nenhum dos dois primeiros grupos dará grande ajuda para a construção de uma política melhor em nosso País. Os cínicos impotentes não se esforçam para consertar o que está errado, tornando-se coniventes com a situação atual. Os jovens raivosos desperdiçam seu idealismo, deixando-se levar por movimentos e lideranças que acabam se revelando mais preocupados em garantir suas próprias posições, aniquilando os adversários, do que em construir o bem comum. A raiva, mesmo que muitas vezes compreensível, nunca é boa conselheira. 

Evidentemente, idealistas-realistas representam o perfil mais adequado para construir uma sociedade mais justa. Todos os papas, ao se dirigirem aos jovens, procuraram incentivar essa posição. Mas tal postura não é tão fácil. Se olharmos para o mundo adulto, veremos que os jovens idealistas frequentemente se tornam adultos cínicos ou raivosos. 

A falta de referências adultas que mostrem que o idealismo pode ser vivido de forma realista é uma das maiores causas da desilusão e da revolta dos jovens quando pensam o mundo adulto. Mas, ao mesmo tempo, explicam o grande fascínio que idosos como o Papa Francisco exercem sobre os jovens. Pessoas como ele mostram aos jovens que é possível ter esperança, que o amor e a ternura não são sentimentos ilusórios, que a indignação pode não levar ao ressentimento e a uma violência desnorteada. 

Na exortação Christus vivit (CV), Francisco escreve: “Aos jovens, está confiada uma tarefa imensa e difícil. Com fé no Ressuscitado, poderão enfrentá-la com criatividade e esperança [...] Misericórdia, criatividade e esperança fazem crescer a vida. [...] Sei que ‘o teu coração, coração jovem, quer construir um mundo melhor [...] Continuai a vencer a apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas que estão surgindo em várias partes do mundo [...] Não olheis da sacada a vida, mergulhai nela, como fez Jesus’ [Vigília da XXVIII Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro]. Lutai pelo bem comum, sede servidores dos pobres, sede protagonistas da revolução da caridade e do serviço, capazes de resistir às patologias do individualismo consumista e superficial” (CV 173, 174). 

Cabe a todo adulto cristão ser ele também um testemunho crível dessa postura humana capaz de criar uma política melhor – para que nossos jovens sejam “idealistas realistas”. 

Francisco Borba Ribeiro Neto é coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP. 

As opiniões expressas na seção “Fé e Cidadania” são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editorais do jornal O SÃO PAULO

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