Quem bate à nossa porta?

Sergio Ricciuto Conte

O migrante bate à porta. Basta uma primeira conversa, até mesmo um único olhar, uma percepção mais aguda, e logo fica claro que o recém-chegado não vem só. Ao lado da mala ou da mochila dos pertences, mesmo invisível, traz a fé e a esperança. As duas se manifestam de forma explícita ou implícita. Estão nos gestos, no modo de caminhar, nos laços que vão tecendo; mas podem estar também na posse de um exemplar do livro santo que pode ser a Bíblia, o Alcorão ou outro ícone religioso. Como plantas extraídas de uma terra para ser transplantadas em outra, as próprias raízes do solo sagrado migram expostas ao sol.

O que vale para o imigrante, que vem de lugares longínquos, atravessando desertos, mares ou fronteiras, vale igualmente para o migrante. Trabalhador sazonal em busca de safras, contratado temporariamente para a construção de grandes obras, ou vivendo de “bicos” no anonimato invisível da cidade – também não deixa de viajar revestido pela roupagem da fé e da esperança. Em muitos casos, o que prevalece é a devoção familiar e, em meio a esta, as figuras do coração de Jesus e de Maria, junto com os santos populares.

Entre esses últimos, merecem destaque Santo Antônio, São João e São Pedro. A eles está ligada, em território nacional, a longa tradição das festas juninas. Não falta, porém, a busca de socorro e de intercessão para as numerosas contradições e penas da vida, sejam elas as carências no lugar e/ou país de origem, sejam as adversidades durante o trânsito ou problemas na hora da chegada. A travessia é sempre custosa. Difícil cruzar terras estranhas e desconhecidas. Mais difícil ainda enfrentar, não raro, o preconceito, a oposição ou discriminação do destino.

O mês de junho no Brasil tem forte tempero sagrado para os que se movem em busca de um futuro mais promissor. Além de celebrar Santo Antônio (dia 13), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29), santos sempre presentes na bagagem dos forasteiros e peregrinos, lembramos ainda a morte do bispo Dom João Batista Scalabrini (dia 1º), considerado “pai e apóstolo dos migrantes”. Foi ele também quem inspirou a vida e o carisma das congregações e institutos que levam adiante o trabalho religioso dedicado ao serviço pastoral no campo da mobilidade humana.

Com o tema “Migração e diálogo” e o lema “Quem bate à nossa porta?”, a Semana do Migrante de 2021, a ser celebrada de 13 a 20 de junho, quer ser uma contribuição para abater muros e construir pontes. Daí o combate à “globalização da indiferença”, abrindo espaço para a “cultura do diálogo, do encontro e da solidariedade”. Nisso, a iniciativa procura, uma vez mais, seguir de perto tanto a temática da Campanha da Fraternidade deste ano quanto as orientações do Papa Francisco no que diz respeito à acolhida do migrante. Promovida pelo Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), em conjunto e sinergia com diversas entidades e organizações afins, a Semana do Migrante tem como objetivo descortinar horizontes novos, na Igreja e na sociedade, para a defesa da dignidade e dos direitos humanos de quem busca um novo solo pátrio.

Padre Alfredo José Gonçalves, CS, pertence à Congregação dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos).

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