Rezar com as Sagradas Escrituras

Estamos prestes a começar o mês de setembro, que a Igreja no Brasil tradicionalmente dedica ao tema das Sagradas Escrituras. A Bíblia é, de fato, um grande tesouro da Igreja, gestado, conservado e transmitido em seu seio, e são muitos os enfoques com que podemos meditar sobre ela: como um relato das maravilhas que Deus operou na história, para salvar a humanidade; como uma rica coletânea de estilos literários diversos, a serem interpretados num estudo aprofundado e minucioso... No texto de hoje, no entanto, queremos recordar um elemento fundamental da vida espiritual de qualquer fiel cristão: a importância de uma abordagem orante do texto sagrado. Já o Concílio exortava a que todos os fiéis “se debrucem gostosamente sobre o texto sagrado (...). Lembrem-se, porém, de que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração” (Dei Verbum DV, 25). 

Sobre o tema de oração a partir da Bíblia, o método mais consagrado em nossa tradição católica é, provavelmente, o da Lectio Divina, que remonta a Orígenes e aos primeiros séculos do Cristianismo - uma espécie de Leitura Orante do texto sagrado, que se estrutura em quatro etapas sucessivas. Expliquemo-las brevemente, tomando como exemplo o Evangelho da última segunda-feira, memória do martírio de São João Batista (cf. Mc 6,17-29). 

Primeiro, vem a Lectio, a leitura do texto, para buscar entender aquilo que ele diz, em si mesmo. Supõe-se, aqui, uma atitude de atenção e abertura de coração – as palavras sagradas “não devem ser puxadas para a vã complacência, mas escutadas em silêncio, acolhidas com total humildade e afeição íntima” (Imitação de Cristo 3,3). Ouvindo com atenção, percebo que, embora tenha mandado matar João Batista, Herodes não tinha desejo de fazê-lo, pois sabia que ele era justo e santo, e por isso o protegia. Gostava de ouvi-lo, embora ficasse embaraçado com as repreensões que fazia a seus pecados. 

Em segundo lugar, faço a Meditatio: busco aplicar a passagem à minha própria vida, à minha situação aqui e agora. O que me diz este texto bíblico, a mim? Assim como uma vaquinha, depois de deglutir uma primeira vez seu alimento, o regurgita para melhor digeri-lo, também nós precisamos ruminar o texto sagrado: “Escreve minhas palavras em teu coração e rumina-as com cuidado; serão muito necessárias no tempo da tentação. O que não entendes ao ler, entenderás quando te visitar” (Idem 3,3). Aqui, eu posso me perguntar se eu mesmo não sou daqueles que gostam de ouvir sobre Cristo e o Evangelho (embora fique às vezes embaraçado com suas exigências, que me pedem pureza, desapego, humildade...), mas que, diante da pressão dos respeitos humanos, acabo por degolá-Lo. 

Depois de escutar a Deus, vem a Oratio, minha resposta a Ele: à luz da mensagem que ouvi, conto-Lhe minhas angústias e alegrias, agradeço-Lhe, e dirijo-Lhe meus pedidos. Posso, então, pedir força para viver uma vida cristã coerente, em meio aos colegas de trabalho ou de faculdade que zombam da fé; ou pedir perdão pelas vezes em que tive vergonha do Cristianismo... 

Em quarto lugar, enfim, a Contemplatio, quando busco me deter diante da presença de Deus, e assumir um pouco de Seu olhar perante minha realidade. Deus não se ofende, a não ser naquilo que agimos contra nosso próprio bem: se, portanto, Ele me manda não o renegar diante dos homens, isso é porque eu mesmo saio ganhando, em virtude e felicidade, com uma vivência coerente da fé. 

O exercício acima é só um breve exemplo, que cada um pode adaptar, com paciência e atenção, à sua própria vida. Busquemos, então, neste mês da Bíblia que começa, usar da Sagrada Escritura como instrumento de diálogo amoroso com Nosso Senhor. 

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