Sobreviver, custe o que custar

Sobreviver, custe o que custar, dizem os russos. Nunca a vida foi fácil. Antes, era até pior. Avanços inegáveis tornaram a vida muito mais fácil. A saúde, o Direito, a produção de alimentos e a tecnologia em geral avançaram muito e tornaram tudo melhor. Os anseios e as inquietudes continuam e são a cada dia mais vorazes. As moções da alma, os afetos desordenados, os vícios capitais pautam nossas vidas e prejudicam o império do Bem no mundo. Em sua missão de salvar almas, a Igreja é o dique que protege os valores fundamentais: a Verdade e o Bem. Dique que tem fissuras, mas nenhuma rachadura.

A Igreja, ou seja, nós, temos que sobreviver, custe o que custar. Ninguém sabe o que acontecerá no minuto seguinte, quiçá no dia ainda por nascer. Cada um de nós há de viver em perpétuo estado de vigilância, pois o momento derradeiro ronda e não avisa.

Novidade alguma escrevo. A Bíblia expõe isso em abundância. O Senhor ensinou por meio de parábolas. A Igreja ensina desde os tempos dos Padres do Deserto, e a literatura universal é pródiga no assunto. Mesmo assim, é preciso reiterar a importância da vigilância e de se saber viver com sabedoria, com leveza, com desprendimento e piedade. Viver com alegria, sempre que possível, e com elegância, quando dos piores e mais dolorosos momentos.

Deus é elegante. Sejamos nós, também. Chorar quando for o caso. Sorrir quase sempre. Compreender o tempo todo. Tolerar acima do possível. Perdoar com senso de justiça. Amar como não acreditamos ser possível. São Bernardo de Claraval ensina que “Deus há de ser amado” e que a “medida do amor por Deus é a de amá-Lo sem medida”. Sabemos disso, mas teimosamente nos esquecemos disso, porque somos um povo de cabeça dura e pescoço em pé.

Amar a Deus é buscar frequentemente os sacramentos, confiar no magistério da Igreja – que é mãe –, evitar o mal e praticar o bem. Chovo no molhado ao escrever essas coisas? Claro que sim, mas acaso faço menos do que deveria? Lembrar-se do óbvio muitas vezes é mais difícil do que aprender algo novo. Custa e não raro acusa nossa própria miséria.

Que mandamento é esse que o Senhor nos deu de amar ao próximo como a nós mesmos? O filósofo declara que o “inferno são os outros” e, o Senhor, pede-nos o amor?

Gosto de pensar que não conseguimos isso porque, no fundo, não nos amamos. Nós nos autoidolatramos, deixamos nos conduzir pelos egos, mas amar a nós mesmos, como realmente somos, não conseguimos. Amamos a imagem distorcida que temos de nós, não a verdadeira, aquela que nos assusta, aquela que acusa nas nossas contradições e graves defeitos. Exatamente por isso é que não conseguimos amar ao próximo e, quando não oprimimos, usamo-lo como bode de expiação de nossos recalques e ressentimentos.

Nem mesmo a Deus conseguimos amar como deveríamos ou falamos que amamos. O amor não é amado, e isso é duro reconhecer. Se nós amássemos a Deus, seriamos homens e mulheres verdadeiramente de fé, de boa vontade. Mas, ao menos tentamos e lutamos diariamente. E isso não é pouco. Não sou eu quem diz, mas Santo Inácio de Loyola, que, para nossa consolação, Deus leva muito em conta nossas intenções.

Então, não, não é verdadeiro o ditado popular que diz que de boas intenções o inferno está cheio. É o Céu que está repleto de almas de quem, ao menos, foi bem-intencionado em vida e tentou sinceramente amar, ainda que aquele amor imperfeito, claudicante, que o grande São Pedro professou ao responder: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. Vamos sobreviver, custe o que custar. 

Paulo Henrique Cremoneze é advogado, mestre em Direito Internacional pela Universidade Católica de Santos (SP) e vice-presidente da União dos Juristas Católicos de São Paulo (Ujucasp).

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