Tolkien e a educação cristã

Arte: Sergio Ricciuto Conte

Em 1914, J. R. R. Tolkien (1892-1973) escreveu o poema “The Voyage of Earendel”, inspirado nos versos compostos em anglo-saxão (inglês antigo) por Cynewulf, do século VIII, cujo título “Crist” evidenciava o teor religioso da obra. A palavra Earendel, presente na obra anglo-saxã, impactou tanto a Tolkien, que o fez mudar o significado desse nome em seu poema de 1914, indo do anjo luminoso que prenunciava o nascimento de Cristo, conforme o texto medieval, para o marinheiro corajoso que atravessava o mar em direção ao firmamento.

Iniciava-se a 1a Guerra Mundial, na qual Tolkien lutou pelo exército inglês. Nascido em 1892, órfão de pai aos 4 anos de idade e de mãe aos 12, foi criado pelo Padre Francis Morgan, pertencente ao Oratório de São Filipe Néri, em Birmingham, fundado pelo Cardeal John Henry Newman, do qual o padre fora secretário. Tolkien sobreviveu ao front da guerra, casou-se, teve quatro filhos, deu aulas nas universidades de Leeds e Oxford, nesta última lecionou em duas cátedras, Filologia e Literatura, escreveu artigos, livros, poemas, ensaios, deu conferências e orientou pesquisas. E escreveu “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, publicados respectivamente em 1937 e 1954-55.

A palavra Earendil reaparece em “O Senhor dos Anéis” – 40 anos após “The Voyage of Earendel” – como um célebre marinheiro élfico que se sacrifica para encontrar os deuses em um momento de catástrofe diante das forças do grande inimigo Melkor, em um poema cantado pelo hobbit Bilbo Bolseiro.

Essas informações pouco valeriam se fossem restritas a um pequeno número de eruditos interessados em idiossincrasias de acadêmicos de Oxford. Contudo, as vendas dos livros de Tolkien, assim como filmes, jogos de videogame, RPGs e fã-clubes se multiplicaram em dezenas de países.

De indicações ao Nobel de Literatura a várias estatuetas do Oscar, a cultura da Terra-média – o universo no qual os heróis e vilões, deuses e demônios de Tolkien vivem – se tornou um fenômeno deste mundo real. Em 2022, está previsto o lançamento da série “Rings of Power”, da Amazon, considerada a produção audiovisual mais cara da história, custando por volta de 1 bilhão de dólares. E o que Tolkien tem a ver com a educação católica? Reconhecidamente um devoto católico por toda sua vida, Tolkien escreveu uma teoria sobre a produção da fantasia (mitopoética) fundada na interpretação cristã – escolástica e patrística – das investigações de Platão e Aristóteles. A herança do Cardeal Newman na Inglaterra do início do século XX foi íntima para Tolkien, por meio de seu tutor, Padre Francis Morgan. Em seus textos sobre religião e literatura, o filólogo de Oxford faz referência a G. K. Chesterton, Christopher Dawson, C. S. Lewis, Max Müller e Andrew Lang.

Apesar do sucesso de sua arte na fantasia, existe um teórico do imaginário em Tolkien, cujos fundamentos são profundamente religiosos e pouco conhecidos. Em nosso contexto mundial contemporâneo de peste, guerra, fome e morte, temas tão recorrentes na cultura cristã medieval, uma investigação moderna de como a produção artística de mitos pode nos ajudar a recuperar a esperança, a fé e a caridade pode ser uma estrada para uma aventura de sanidade e consolação.

Saiba mais sobre o curso de especialização em Teologia e Ensino Religioso, promovido pela Faculdade de Teologia da PUC-SP.

As opiniões expressas na seção “Opinião” são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editorais do jornal O SÃO PAULO.

1 comentário em “Tolkien e a educação cristã”

Deixe um comentário