Logo do Jornal O São Paulo

Tradições natalinas e infância: reflexões sobre hierarquia

Recentemente, eu me peguei refletindo sobre o comportamento das famílias em relação às tradições natalinas. Já há algum tempo, venho observando as mudanças que as famílias mais novas vêm fazendo, influenciadas por orientações sobre educação de hábitos infantis – sono, ordem etc.

Muito embora eu também oriente sobre a importância de tais hábitos, costumo aprofundar minhas reflexões, tendo em vista o bem maior a ser alcançado com nossas ações. Isso me leva a pensar: será que, como sociedade e especialmente como cristãos, estamos acertando o “alvo” quando priorizamos o sono tranquilo dos pequenos em vez das tradições familiares de Natal? O que estamos ganhando e perdendo com isso?

Lembro-me de que, desde muito pequena, toda minha família, que se reunia com frequência, fazia um movimento muito diferente e especial no Natal. Nesse dia, a reunião acontecia mais tarde, em torno das 23h. As pessoas chegavam bem-vestidas, felizes, trazendo pratos bonitos, pois o ponto culminante de nosso encontro era a espera pelo nascimento de Jesus, o que celebrávamos pontualmente à 0h. Esse era o momento da oração, dos cantos, dos cumprimentos e, somente depois disso, iniciávamos a ceia de Natal. Evidentemente, as crianças eram alimentadas antes, em suas casas, e nessa hora já estavam quase pegando no sono, algumas já estavam até dormindo, mas a festa continuava. Dormiam em colchões, sofás, nos cantos da escola da família, que era nosso ponto de encontro nessa festa de Natal. Nosso objetivo, quando crianças, era conseguir ficar acordadas, para participar da celebração e depois conseguir assistir às brincadeiras dos adultos (amigo secreto), que eram divertidas, enfim, era um dia realmente esperado por toda a alegria e festividade que o nascimento de Jesus inspirava naquele encontro familiar. A Criança no centro da festa era Jesus e nenhuma mais. Nada era mais importante do que esperá-Lo em vigília alegre, celebrar com a família.

Claro que nós, crianças, éramos preparadas para isso: era dia de acordar um pouco mais tarde, fazer soneca mais demorada à tarde ou ao menos permanecer na cama descansando para a festa da noite e, depois, o dia seguinte era mais trabalhoso mesmo: era preciso que os adultos suportassem uma certa chatice e mau humor infantil devido à alteração maior na rotina. No entanto, isso passava e entrava nos eixos em pouco tempo.

Hoje em dia, tudo parece estar bem diferente: o centro da festa é a rotina das crianças da família. Tudo tem que ser adaptado a elas – o horário da ceia, as brincadeiras etc. Muitas vezes, à meia-noite, hora que deveria ser a mais esperada pela família cristã, todos já estão em casa dormindo, afinal, as crianças ficarão muito chatas, sairão da rotina, os dias que se seguirão serão de dificuldade para os pais.

O interessante é que ninguém reflete sobre o lugar em que essas ações colocam a criança: no centro da atividade familiar. Tudo gira em torno dela. Ouvi de um amigo querido: “Nosso Natal agora é para ela, então, tudo foi adaptado em casa para os horários dela!” Confesso que isso me assustou. Não, definitivamente, essa não pode ser a melhor saída. O Natal é sobre Deus que se fez homem e veio nos salvar, Ele, e somente Ele, deve ser o centro da festa. Como iremos dar importância ao que realmente deve ter importância, se desde sempre as necessidades da criança são colocadas no centro? Mais do que isso: como trabalharemos nossa resiliência e fortaleza, se não suportarmos alguns poucos dias de dificuldade por uma causa justa? Não é somente mais uma celebração, é, ou deveria ser, uma tradicional vigília à espera do Menino Deus. Enfim, espero gerar com este artigo reflexões sobre esse assunto. Parece-me que ele pode iluminar nosso senso de hierarquia.

Deixe um comentário