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Três clássicos filmes de Frank Capra

JOÃO FOUTO

Um dos diretores mais influentes do cinema nos anos 1930, apresentou em suas obras mensagens sobre a valorização da vida comunitária e simples, da família, da esperança e da rendenção

Três clássicos filmes de Frank Capra
Cena do filme “A Felicidade Não se Compra

Frank Capra, o mais novo de sete filhos, nasceu em uma vila próxima a Palermo, na Sicília, Itália, em 1897, e com 5 anos se mudou para Los Angeles, nos Estados Unidos. Tornou-se um dos mais influentes diretores de cinema nos anos 1930, tendo ganhado, entre outras premiações, três prêmios Oscar de Melhor Diretor. Apesar de morrer em 1991, sua última produção cinematográfica ocorreu em 1964.

Seguramente, foi um dos maiores nomes de Hollywood e deixou uma profunda marca na história do cinema – que, segundo críticos, se estendeu por muitos anos além de sua carreira. Por seu estilo particular e decidido, Capra foi objeto de interpretações variadas. Em seus filmes, o forte otimismo, a valorização da família, a valorização da vida simples e provinciana contra a ambição da riqueza e a corrupção dos grandes centros urbanos, a exaltação da retidão moral etc. lhe valeram os rótulos de ingênuo, conservador, representante do antigo ideal americano, entre outros. Em geral, porém, Frank Capra é tido como um grande mestre do cinema, ainda que vários críticos não comunguem de seus valores.

O objetivo deste texto não é sintetizar ou expor a vida e obra de Frank Capra, mas recomendar três de seus filmes, que são verdadeiras obras primas. Seguem alguns breves comentários que não são fruto de um conhecimento aprofundado do autor e o contexto em que viveu. Os três filmes falam cada um por si mesmo: por isso, os comentários se apoiam exclusivamente neles. São divertidos, dinâmicos – alguém poderia pensar que, por serem antigos e em preto e branco, são tediosos: nada disso! – e repletos de mensagens profundas.

Nos três filmes, embora haja diferenças de enredo, encontram-se algumas mensagens centrais:

1)  A valorização da vida comunitária e simples, na qual todos se conhecem e se ajudam, contra o capitalismo doentio que se desenvolve nas grandes cidades, no qual o valor máximo é o lucro. Um desavisado poderia pensar que isso faz de Capra um socialista/comunista. Pelo contrário: nisso ele é um expoente do antigo ideal americano, isto é, de uma sociedade livre e baseada em trocas, mas que, ao mesmo tempo, rejeita a formação de grandes estruturas governamentais e de grandes monopólios, os quais sempre terminam por perverter os valores da sociedade e roubar a liberdade dos cidadãos. Aqui encontramos vários pontos de contato com a doutrina católica sobre o princípio de subsidiariedade, presente no Catecismo da Igreja. Sendo assim, poderíamos dizer que seus filmes se opõem também – e de modo decidido – a qualquer forma socialista de governo.

2) Na esteira dessa vida comunitária e simples, Capra valoriza muito a família. A beleza da família, a harmonia de um lar em que pai e mãe se amam e se entregam pelos filhos, de um modo ou de outro aparece nos três filmes. Talvez muitos hoje diriam que a família de Capra – “tradicional” – é fantasiosa e ingênua. Não nos parece que seja assim. As grandes coisas da vida são simples: o homem contemporâneo, “sofisticado e iluminado”, “livre das amarras do passado”, vive uma vida intensa sem saber para onde vai; sobra para ele ansiedade, medo, angústia, tristeza e cinismo. Se as pessoas pudessem ver a beleza de uma família cristã, descobririam que a felicidade não está tão longe. Esses filmes podem ser uma ajuda para isso.

3) Otimismo. Assim dizem alguns críticos. Nós trocaríamos essa palavra por uma mais justa: esperança. Seus filmes exalam uma enorme esperança na bondade do mundo e do homem. O bem sempre termina por vencer. Para a mentalidade de hoje isso se chama ingenuidade. De certo modo, têm razão, pois enxergam o mundo – ainda que não percebam isso – com olhos “laicizados”, ateus, fechados à presença divina. A esperança desses filmes, no entanto, é fruto da raiz católica de Capra: o cristão deve transbordar de esperança, pois Cristo já venceu o mal e, por meio de sua Igreja, nos concede a graça de participar dessa vitória. Em outras palavras, com a fé em Nosso Senhor e a graça que dele recebemos, esse otimismo seguramente se torna realidade, ainda que, como sabemos, não plenamente nesta vida, mas por meio da contradição da cruz. O otimismo de Capra transmite também aquela convicção de que, apesar dos sofrimentos da vida, as coisas – e a própria vida – são essencialmente boas.

Há vários outros pontos para mencionar. Ressaltaremos somente um outro:

4) Os três filmes ensinam algo sobre a redenção. São filmes que, discretamente, convidam ao perdão. Em dois deles, por exemplo, vemos a história de um homem do interior, simples e aparentemente ingênuo, que vai para um ambiente corrupto na cidade grande. Enquanto alguns personagens aproveitam disso para o explorar, outros se convertem – inclusive a mocinha dos dois filmes! – e procuram ajudá-lo. Desse modo, retratam aquelas pessoas – talvez a maior parte da humanidade – que, embora conservem em seus corações a abertura ao bem, são, aos poucos, arrastados pelas misérias do mundo. A corrupção generalizada dos ambientes em que vivem rouba deles a esperança, a pureza da infância e os grandes ideais, transformando-os em pessoas tristes, amargas e/ou cínicas. A presença de um homem bom, que não se dobrou às imundícies do mundo e conserva aquela leveza e alegria próprias das pessoas puras, é para elas uma grande libertação: sua esperança se reacende, recordam das boas coisas do passado – as coisas simples – e tem coragem de recomeçar.

Enfim, são filmes excelentes, cheios de uma leveza que hoje é raro encontrar. Os mestres da educação dizem que a virtude entra pelos olhos: é vendo e convivendo com pessoas virtuosas que o homem passa a desejar a virtude e se torna capaz de exercitá-la. O cinema, portanto, pode ser muito eficaz para a educação ou destruição dos jovens. Nesse sentido, pensamos que estes três filmes têm muito a oferecer aos pré-adolescentes, adolescentes e adultos. E são filmes divertidos. São também ótima opção para ver em família.

Eis os filmes: A Felicidade Não se Compra (o mais famoso deles), O Galante Mr. Deeds e A Mulher Faz o Homem. Recomendamos que todos sejam vistos! Bom proveit

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