Vida real, mundo virtual e a realidade paralela

Quando falamos da internet, temos a impressão de que se trata de um lugar virtual, separado por completo da vida real. Essa percepção é parcialmente verdadeira, principalmente se olharmos com alguma atenção para as redes sociais, sua estrutura e lógica de funcionamento.

Se por um lado elas permitem que nos conectemos com outras pessoas que amamos, não podemos nos esquecer de que, de outro lado, há uma empresa que objetiva seus lucros e sua expansão.

A interface do aplicativo no dispositivo móvel, por exemplo, lembra intencionalmente a operação de um caça-níqueis: ao “baixar a alavanca”, você nunca sabe o que vai aparecer.

Assim, se não prestarmos muita atenção, nos vemos aprisionados, buscando as atualizações desse con- teúdo infinito, sem cessar.

Aliás, se o tema lhe parece interessante, sugiro que veja o documentário “The Social Dilemma”, de 2020 (em português: “O dilema das redes”), no qual profissionais que trabalharam nas maiores empresas de tecnologia apresentam como esses mecanismos foram criados objetivando o vício no seu uso.

Para dar um exemplo prático: lembro-me das férias do verão passadas na praia, quando chamei a atenção de meus filhos para outra família próxima a nós. Pai, mãe, filho e filha, cada um em seu próprio dispositivo, olhando por horas para aquelas telas, navegando em seus “mundos virtuais”.

Enquanto isso, no mundo real, minha esposa, meus filhos e eu conversávamos, apreciávamos a linda paisagem e degustávamos um delicioso camarão. Que saudades!

Esse é o ponto central que gostaria de chamar a atenção e aprofundar neste artigo e em outros futuros. Sobre a nossa relação com esse “mundo virtual”.

Quando me refiro a esse mundo, não me limito apenas às redes sociais. É preciso notar que, com o avanço da tecnologia, esse conceito se apresentará de forma mais agressiva no futuro. A partir das redes sociais de hoje e até lá, é importante termos claro alguns pontos, seja para nós, seja para a orientação de nossos filhos.

Se para nós pode ser um agradável passatempo, para muitos, sobretudo os mais novos, o “mundo virtual” se tornou um lugar atraente e aparentemente seguro, onde se busca aquilo que não se consegue facilmente na vida real.

Nesse “mundo virtual”, as comidas são mais bonitas, as viagens são maravilhosas, as profissões são todas de sucesso. Não há rugas, não há caras fechadas. Assim, podemos acabar sendo atraídos pela “imagem virtual” que criamos de nós mesmos.

Todos nós já vimos, nos locais em que frequentamos, adolescentes tirando dezenas de fotos de si mesmos, procurando o ângulo mais perfeito e a feição mais atraente. Ao publicarem suas fotos ou compartilharem o local onde estão, aguardam ansiosamente pelas “curtidas” e elogios que virão. No final do dia, da mesma forma que nós quando adolescentes, buscam a aceitação e o reconhecimento. A inocente foto de si mesmo pode esconder algo mais profundo, que é a criação de uma realidade paralela, na qual me torno um personagem distante de quem sou de fato. Aos poucos, os mais jovens podem acabar se moldando para ser aquele personagem que tem o maior índice de aceitação.

Contudo, entre ele e seus amigos há um algoritmo, uma inteligência artificial que decide o que vai aparecer para os outros. No final do dia, ao contrário do que se pensa, a sua aceitação não está sendo mol- dada pela opinião de seus amigos, mas em grande parte por aquilo que a empresa acha que é importante destacar.

Sim, seus filhos podem estar sendo moldados pela inteligência virtual treinada por uma empresa, cujo viés (bias, no inglês) ninguém é capaz de dizer para onde aponta. Em um mundo profundamente ideologizado, já se sabe aonde isso pode levar.

Ao voltarmos para o mundo real, deparamo-nos com o boleto sobre a mesa, o mau humor do companheiro de trabalho e a comida que veio errada no almoço. O mundo real não tem piedade, não dá para tirar 20 selfies para publicar a melhor, não há segunda oportunidade para apresentar o trabalho para um cliente.

E a forma mais fácil de lidar com as frustrações do mundo real é se voltar perigosamente ao refúgio do “mundo virtual”.

Mas como lidar com isso? Bom, me parece que devemos ser “o sal da terra e a luz do mundo na internet!”. Mas isso é assunto para outra oportunidade.

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