Vocação: caminho seguro para a felicidade

Um dos mais belos dons que o Espírito Santo confiou à Igreja por meio do mais recente Concílio foi certamente uma aprofundada tomada de consciência da vocação universal à santidade: quer sejam bispos ou padres, monges ou freiras, pais e mães de família ou leigos celibatários, “todos na Igreja (...) são chamados à santidade” (Lumen gentium, n. 39). Na verdade, este ensinamento sempre esteve na fé da Igreja, e não é uma novidade “inventada” pelo Vaticano II, mas sua proclamação solene foi importante para repelir uma certa tendência clericalista, que classificasse as diversas vocações da Igreja com base no “grau de seriedade da vida cristã” abraçada por seus membros – como se apenas padres e freiras fossem “cristãos pra valer”, e os leigos fossem cristãos “mornos”, e “de segunda classe”. Pelo contrário: foi a todas as multidões de discípulos, e não só aos apóstolos-sacerdotes, que Cristo deu aquela ordem: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48)

Como qualquer ensinamento da Igreja, no entanto, a doutrina da vocação universal à santidade corre o risco de ser mal compreendida, e acabar levando a visões distorcidas sobre o tema da vocação pessoal. É claro que, por meio dos diversos estados de vida cristãos, Deus chama igualmente todos os fiéis à santidade – mas seria equivocado concluir disso que Ele não proponha, a cada pessoa, um chamado específico, uma vocação particular. De fato, o discernimento entre as vocações não deve ser mero fruto de uma escolha pessoal, com base em critérios puramente humanos (“eu gostaria de viver num mosteiro”, “eu sempre sonhei em constituir família”) - mas sim uma resposta a um apelo personalíssimo d’Aquele que te criou: “Eu te redimi e te chamei por teu nome, tu és meu” (cf. Is 43,1)

Para cada um de nós, individualmente, há um caminho que é proposto por iniciativa divina, uma terra que Ele nos demarcou em herança: como diz o lema da Catedral de Notre-Dame de Paris, Via viatores quaerit (“O Caminho procura por caminhantes”). Deus convida alguns de nós para serem pais e mães de família; a outros, Ele chama para serem celibatários consagrados no meio do mundo; e a outros, enfim, Ele propõe o seguimento radical da vida religiosa ou sacerdotal. Em qualquer um desses casos, no entanto, a resposta à vocação pessoal é o único caminho seguro que possuímos para a felicidade profunda e duradoura, para termos o coração em festa e a alma tranquila (Sl 15,9).

Mas como discernir este chamado? Afinal, não é todo mundo que recebe uma visão direta de Nosso Senhor, como São Paulo no caminho a Damasco... A tradição da Igreja nos ensina que o primeiro passo para um discernimento vocacional acertado é o esforço para levar uma vida cristã coerente, com integridade de vida: recolhimentos generosos e diários em oração, assiduidade aos sacramentos (especialmente à Eucaristia e à Confissão) e o auxílio de um bom diretor espiritual. E, uma vez que se enxerga o caminho, é preciso a coragem de dar o passo, de se entregar a Deus: de uma vez, e de verdade, ainda que à custa de sacrificar nossa vida por causa de Cristo, para um dia virmos a recobrá-la (cf. Mt 16,25). 

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