Antônio Carlos Malheiros: Sempre há tempo para a compaixão

Antônio Carlos Malheiros: Sempre há tempo para a compaixão

O desembargador Antônio Carlos Malheiros, falecido nesta quarta-feira, 17, teve sua vida dedicada na defesa e na promoção da dignidade humana, especialmente das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Em entrevista concedida ao O SÃO PAULO em agosto de 2018, Malheiros falou sobre sua dedicação ao serviço voluntário. Como ele mesmo se definiu, é “eclético” no voluntariado. Já atuou em favelas, ruas, hospitais, sobretudo com crianças e adolescentes. Há mais de 20 anos, trocava a toga e a seriedade dos tribunais pelo nariz de palhaço para contar histórias a crianças portadoras de HIV. 

O Desembargador assegurou que a motivação para esses inúmeros trabalhos é fruto da “graça de Deus” que nasce do contato com aqueles que sofrem. Ele também compartilhou as experiências inesquecíveis que mudaram sua vida nesses mais de 50 anos de voluntariado. Confira.

QUAL FOI A SUA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA COM O TRABALHO VOLUNTÁRIO?

Antonio Carlos Malheiros – Eu tive uma formação cristã católica muito forte na minha família. Logo quando eu cheguei ao Colégio São Luís, dos jesuítas, eu externei a vontade de me tornar um sacerdote na Companhia de Jesus. Por isso, fui morar no seminário menor, com o propósito de futuramente ingressar no noviciado jesuíta. 

Em 1963, eu tinha 13 anos e cursava a terceira série ginasial, quando conheci um professor de Geografia chamado Fauzi Saad, que nos propôs, como trabalho para substituir o exame do meio do ano, fazer visita a uma favela. Fui um dos poucos alunos que toparam fazer esse trabalho. O Professor me levou à Favela do Vergueiro, que era a maior da cidade de São Paulo na época. Entrei com papel e caneta para fazer anotações de tudo o que eu visse nessa comunidade e, depois, relatar para a classe o resultado. 

Ao entrar na favela, eu encontrei uma menina da minha idade, chamada Mônica, negra, extremamente magra, mal agasalhada, pés descalços e, o que mais me assustou, estava grávida, vítima de um abuso que sofreu. Ela me chamou para conhecer o barraco onde morava. Era um barraco caindo aos pedaços, chão de terra batida quase todo coberto por um colchão de casal, onde estava deitada sua mãe, de cerca de 40 anos e com câncer.  Além da mãe, moravam no barraco mais cinco irmãos mais velhos. Confesso que a partir desse dia nunca mais consegui sair da grande favela da vida. Eu não tinha a menor ideia da tragédia que muitas pessoas viviam na nossa cidade.

E A PARTIR DAÍ?

No restante do meu ginásio e do meu colegial, acompanhei o Padre Paulo Ruffier, jesuíta já falecido, que ia às ruas, principalmente nas noites mais frias, para levar café, lanches e cobertores para os moradores de rua. Terminado o colegial, eu acabei não indo para o noviciado da Companhia de Jesus e entrei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Logo, escolhi dez colegas de classe, moças e rapazes, e, durante 10 anos, fomos dar reforço escolar na Favela do Bororé [na zona Sul] para as crianças e adolescentes que trabalhavam num lixão da região, para quem também dávamos noções de cidadania. Há mais ou menos cinco anos, fui chamado para uma festa de Natal naquela comunidade. Aqueles meninos e meninas cresceram e se tornaram os líderes comunitários daquele local. Sem a ajuda de políticos, eles próprios passaram a exigir do poder público melhorias como creche, ambulatório médico, um ponto de ônibus na entrada da comunidade. As ruas internas estavam urbanizadas. Outra coisa que me chamou a atenção foi que os traficantes de drogas não dominavam a comunidade graças à organização dos moradores que os impediu de se fixarem lá.

E COMO FOI O TRABALHO COM PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA?

Trabalhei muitos anos nas ruas, várias vezes por semana, com os Irmãos da Caridade, ramo masculino da congregação fundada por Santa Teresa de Calcutá. Era um trabalho muito interessante. Tentávamos reintegrar os meninos e meninas que viviam nas ruas às suas famílias. Eu era da equipe que ia às ruas, e havia outra que ia às favelas e cortiços tentar encontrar as famílias. Era extremamente difícil, porque as famílias, muitas vezes, não queriam essas crianças de volta. 

DESSES MENORES DAS RUAS, ALGUM MARCOU MAIS?

Uma das melhores pessoas que conheço eu descobri nas ruas, na década de 1970. Era um “meninão” de 15 anos, filho de um engenheiro e de uma professora. Ele era viciado em cocaína, uma droga que ainda não estava nas ruas naquela época. Eu comecei a prestar a atenção nesse menino. Passados vários meses, eu fiz um arriscado convite para ele trabalhar como office-boy no meu escritório de advocacia. Ele aceitou, voltou a estudar, voltou para a casa dos pais, fez um tratamento no Hospital das Clínicas, tornou-se um ótimo funcionário e recaiu. Fui novamente buscá-lo nas ruas, fez o caminho de volta várias vezes. Na oitava vez que fui buscá-lo nas ruas, eu disse a ele: “Não aguento mais você. Mas, convivendo contigo durante todo esse tempo, passei a te amar como um filho… E de filho nós não desistimos. Vamos embora de novo”. Dessa vez, ele saiu e não voltou para as ruas. Hoje ele é um professor da Fundação Getúlio Vargas. É um excepcional administrador hospitalar. Desenvolveu em São Paulo, e hoje no Rio de Janeiro, um trabalho maravilhoso com crianças e adolescentes com dependência química. 

E O VOLUNTARIADO COM PESSOAS COM HIV?

Em 1984, eu era diretor de uma editora, quando o nosso tesoureiro, grande e forte, morreu de pneumonia em duas semanas. Fui conversar com o médico para entender o que tinha acontecido, quando descobri que ele tinha Aids. Pedi mais informações sobre isso e o médico me levou para conhecer a Aids no Hospital Emílio Ribas, de onde eu nunca mais saí. Comecei a trabalhar com aqueles adultos, na época, quase todos homens, completamente sozinhos… Fiquei muito sensibilizado com aquilo. Como não dava para ter dois voluntariados, entrei na Pastoral da Saúde e trabalhei com os primeiros doentes de Aids até 1997, quando fui convidado para trabalhar com crianças com HIV. Assim, nasceu a Associação Viva e Deixe Viver, uma ONG de contadores de histórias e de palhaços em hospitais, hoje com mais de 1.500 voluntários espalhados em 97 hospitais de todo o País. Eu continuo indo todas às sextas-feiras, à tarde, para passar duas horas brincando com as crianças no Emílio Ribas. 

AGORA, COMO VOCÊ ENCONTRA TEMPO PARA TUDO ISSO?

Todas as vezes que eu paro para fazer contas, não bate. Então, essa pergunta eu não consigo responder. Eu vou fazendo. 

POR QUÊ?

Isso vem de dentro. É um impulso interior. Eu tenho certeza absoluta que esse impulso foi formado por toda a minha base cristã, começou com meus pais. Penso que a história da Mônica, naquela favela, me marcou profundamente. Percebo que minha vida é permeada por esse sentimento de compaixão, de misericórdia. Faz parte da minha vida. É evidente que isso é a graça de Deus. Não há dúvida nenhuma. Nem sempre faço bem feito. Há momentos em que fico cansado. Aí eu respiro fundo, rezo e volto a ter forças novamente para continuar.

QUE CONSELHO VOCÊ DÁ PARA QUEM TEM INTERESSE DE SER VOLUNTÁRIO EM ALGO?

Você pode ser voluntário em vários lugares. Mas precisa descobrir o local onde mais se identifica. Eu sou, modéstia à parte, um eclético em matéria de voluntariado. Porém, nem todo mundo é. É preciso identificar a periferia existencial onde há pessoas que necessitam de compaixão. Estar atento a quem está próximo e necessita de ajuda. 

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