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A amizade conjugal 

Em uma passagem particularmente brilhante, Una Caro (Uma carne, UC), nos mostra toda a riqueza de afetos, projetos de vida e desejo que se abriga em um relacionamento afetivo maduro entre cônjuges (UC 141-144). 

A amizade conjugal  - Jornal O São Paulo
Imagem criada por IA (Google Gemini) 

O amor dos cônjuges, efetivamente, realiza e evoca uma proximidade única e singular entre dois corações que se amam, gerando uma afinidade especial que se nutre de uma tal partilha de si mesmo, dos bens e de toda a vida, que a profundidade do amor conjugal é capaz de realizar com intensidade incomparável. À medida que o amor amadurece e cresce no casamento, o coração da pessoa amada percebe que nenhum outro coração é capaz de fazê-la sentir-se “em casa” como o da pessoa que ela ama. 

Essa amizade conjugal, repleta de conhecimento mútuo, apreço pelo outro, cumplicidade, intimidade, compreensão e paciência, de busca do bem do outro e de gestos sensíveis, na medida em que supera a sexualidade, ao mesmo tempo a abraça e lhe dá seu significado mais bonito, profundo, unitivo e fecundo […]A união sexual, “vivida de forma humana e santificada pelo sacramento […] é, por sua vez, um caminho de crescimento na vida da graça para os esposos” (Amoris laetitia, AL 340). Por isso, colocar a sexualidade no quadro próprio de um amor que une os cônjuges em uma única amizade, que busca o bem do outro, não implica uma desvalorização do prazer sexual. Orientando-o para a doação de si mesmo, ele não só é valorizado, mas também pode ser potencializado […] 

Vista dessa maneira, a sexualidade não é mais a satisfação de uma necessidade imediata, mas é uma escolha pessoal que expressa a totalidade da própria pessoa e assume o outro como uma totalidade pessoal. Esta verdade, em vez de comprometer a intensidade do prazer, pode aumentá-lo, torná-lo mais intenso, rico e gratificante […] Em vez disso, se nos fechamos em nós mesmos e usamos o outro apenas como meio para satisfazer nossas necessidades imediatas, o prazer deixa-nos mais insatisfeitos e o sentimento de vazio e solidão torna-se mais amargo. 

Falando sobre a caridade conjugal, Karol Wojtyła convida a superar toda dialética inútil, explicando que “o amor-virtude se refere ao amor efetivo, assim como ao amor da concupiscência” (em Amor e responsabilidade). O Papa Bento XVI, na Deus caritas est (DCE), reitera que o amor oblativo e o amor possessivo não podem ser separados um do outro, porque “no fundo, o ‘amor’ é uma única realidade, embora com distintas dimensões; quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou uma forma redutiva do amor” (DCE 8). Quando falamos do amor de concupiscência, não devemos entender apenas o desejo sexual, mas também qualquer forma de buscar o outro como “um bem para mim”, para superar a solidão, para receber ajuda nas dificuldades, para ter um espaço de total confiança […] 

Nesse sentido, não podemos ignorar que, nas últimas décadas, no contexto do individualismo consumista pós-moderno, surgiram diversos problemas originados por uma busca excessiva e descontrolada por sexo, ou pela simples negação do fim procriador da sexualidade […] Isto ocorre especialmente devido à sensação de ansiedade, de estar sempre ocupado, de querer ter mais tempo livre para si mesmo, de estar sempre obcecado por viajar e conhecer outras realidades. Consequentemente, desaparece o desejo de troca afetiva, das próprias relações sexuais, mas também de diálogo e cooperação, coisas que são vistas como “estressantes”. 

* Texto extraído de DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Una Caro. Elogio à monogamia, sobre o valor do Matrimônio como união exclusiva e pertença recíproca. Roma, 25/nov/2025. 

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