Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

A beleza do vínculo conjugal

A família é a célula básica da sociedade – e a relação entre os cônjuges é o núcleo da família. Pensamos o bem comum, normalmente, como uma questão apenas de bens materiais. Mas famílias realizadas, com um relacionamento sadio e feliz, são tão ou mais necessárias que os bens materiais. Por isso, neste mês de maio, tradicionalmente dedicado também à reflexão sobre a família, o Caderno Fé e Cultura se debruça sobre a nota doutrinal Una Caro, do Dicastério para a Doutrina da Fé. E, quando falamos de amor, inevitavelmente nos vem à mente a beleza do amor e também as dores das experiências que “não deram certo” – por isso, dedicamos este Caderno principalmente a esses temas. 

A beleza do vínculo conjugal - Jornal O São Paulo
Arte: Sergio Ricciuto Conte

 A beleza do vínculo conjugal 

No final de 2025, as mídias sociais noticiaram com grande alvoroço a publicação da nota doutrinal Una Caro. Elogio à monogamia, sobre o valor do Matrimônio como união exclusiva e pertença recíproca (UC), pelo Dicastério para a Doutrina da Fé. O documento defenderia, pela primeira vez na tradição católica, a função não apenas procriativa, mas também “unitiva” da relação sexual e o valor do prazer sexual. É verdade que o documento faz essa defesa (cf. UC 32-46), mas não se trata de nenhuma “inovação doutrinal”. O texto, para quem o ler (e vale a pena fazê-lo), reafirma aquilo que já consta na Tradição católica desde sempre. Bebe frequentemente na teologia de São João Paulo II, na qual reconhece uma inspiração (UC 2). Se existe algo escandaloso aqui, é o desconhecimento, mesmo em uma cultura nascida a partir do Cristianismo, da beleza da mensagem cristã sobre a união conjugal. 

Referir-se à beleza, neste caso, é fundamental. Se “a beleza é o esplendor da verdade”, em nenhum outro espaço da vida humana a verdade é chamada a manifestar-se como beleza com tanta intensidade quanto na relação conjugal. Nossa cultura tem tenta-do, sem sucesso, resolver o drama das relações afetivas, sempre difíceis, apesar de maravilhosas, propondo uma autonomia absoluta, pela qual os amantes são cada vez mais independentes um do outro. O fracasso é cada vez mais gritante e trágico. 

A maior realização da liberdade é ser doada para aquilo que dá sentido à nossa vida. Uma autonomia que ignora a dependência estrutural a um outro (e ao grande Outro) não floresce como liberdade, mas apodrece como vazio, solitário e sem sentido. O ser humano pede, em seu coração, uma união exclusiva e uma pertença recíproca. Não se trata de um preceito arbitrário e autoritário, destinado a sufocar o amor. É o reconhecimento de um ideal pelo qual todos os corações anseiam. O verdadeiro desafio, reconheçamos, não é negar esse desejo, mas, sim, realizá-lo plenamente. 

O amor romântico, tão idealizado nas artes, deve muito de sua concepção moderna ao Cristianismo. A fé cristã forneceu a gramática metafísica para a paixão ocidental. Ao elevar o Matrimônio a sacramento, a Igreja introduziu a ideia de que a união entre dois seres não era apenas um contrato social, mas um reflexo do divino, dotado de uma dignidade transcendente e eterna. Na Idade Média, essa sacralidade fundiu-se ao amor cortês. A devoção antes reservada à Virgem Maria foi transposta para a figura da amada, transformando o desejo em uma jornada de purificação e sofrimento — a “paixão”. O conceito de ágape, o amor sacrificial, moldou a entrega romântica, enquanto a busca pela unidade nas “duas carnes” ofereceu o suporte para a exclusividade monogâmica. Assim, a sede de infinito que caracteriza (frequentemente de forma trágica) o romantismo moderno nada mais é do que o anseio cristão Absoluto, agora buscado no rosto do outro, fazendo do amor humano uma liturgia da esperança e da mútua doação. 

Una Caro recupera essa rica Tradição, mostrando a profundidade e a beleza da sabedoria católica em relação ao Matrimônio. Ao reafirmar a monogamia como uma “profecia” (UC 107), o documento resgata a ideia de que a exclusividade não é uma amarra jurídica, mas a condição de possibilidade para uma liberdade profunda. Na expressão “nós dois”, o tempo deixa de ser um inimigo que desgasta o desejo para se tornar o aliado que o amadurece, transbordando para o compartilhamento de todas as “lutas e esperanças”, transformando a paixão inicial na partilha da totalidade da vida, com todas as suas lutas e esperanças (UC 1). 

Ao definir o Matrimônio como a “maior amizade” (UC 139), o documento sublinha que a intimidade física e a comunhão espiritual são indissociáveis. Em última análise, Una Caro apresenta a união conjugal como um caminho de santificação que passa pelo reconhecimento da dignidade absoluta do outro. Ao se sentirem “em casa” um no outro, os esposos não apenas realizam um projeto humano, mas antecipam, na finitude da carne, a promessa de um amor que aspira ao eterno. O “nós dois” torna-se, portanto, a reafirmação de que a totalidade da entrega é o único solo em que a beleza do amor pode, de fato, florescer em sua plenitude. 

Deixe um comentário