Poucas estreias recentes geraram tanto debate quanto “A Odisseia”, de Christopher Nolan. O filme obteve a maior bilheteria da carreira do diretor e alcançou 94% de aprovação no Rotten Tomatoes, recorde entre seus longas. O fascínio e as polêmicas não nasceram apenas da sua reconhecida qualidade cinematográfica, mas também das liberdades narrativas tomadas a partir da obra homérica e da escalação multiétnica do elenco.

Direção e roteiro: Christopher Nolan.
Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson, Zendaya, Charlize Theron, Lupita Nyong’o.
Produção: Syncopy, Universal Pictures (EUA/Reino Unido, 2026).
Duração: 172 minutos.
A Odisseia de Homero é um grande poema épico que consagra aquele que seria, sob certos aspectos, o mais completo dos heróis gregos: Ulisses, o líder que combina força, coragem, astúcia e carisma – homem de muitos recursos, de uma grandeza trágica capaz de suportar, com obstinação, até o destino imposto pelos deuses. Personifica a dignidade, a autoafirmação e o orgulho dos fortes, que enfrentam todas as adversidades para realizar a sua vontade.
Aos olhos da ética contemporânea, nem todas as suas proezas pareceriam elogiosas. Grita seu nome após superar o Ciclope, para que o derrotado sofra a humilhação de saber quem o venceu. Saqueia a cidade dos Cícones, matando os homens e repartindo mulheres e riquezas como despojo de guerra. Enquanto Penélope passa 20 anos esperando fielmente pelo esposo, ele passa um ano com Circe e sete anos com Calipso. Na volta a Ítaca, não apenas mata os vis pretendentes, mas também as servas que se relacionaram com eles e o cabreiro que os ajudou – com requintes de crueldade.
Christopher Nolan, porém, estava interessado em explorar outra vertente da narrativa épica. Seu Ulisses, como ele mesmo e seu intérprete (Matt Damon) reconheceram, ecoa Oppenheimer, o pai da bomba atômica e protagonista de seu filme anterior. O cavalo de Troia é uma outra bomba atômica, destruindo uma cidade e matando milhares de inocentes. Ulisses é o herói genial, às voltas com o remorso pela imensa tragédia que brotou de seus atos – como Oppenheimer.
Para muitos críticos, Nolan desvirtuou o drama homérico, tirando-lhe o vigor, a grandeza e – de certa forma – até mesmo a tragicidade. Outros viram nele uma “leitura cristã”, marcada pela consciência da culpa e a necessidade de redenção. O próprio diretor reconhece que abordou a história sob o prisma da subjetividade de Ulisses e de valorizar a xenia, a lei sagrada da hospitalidade, chamada no filme de “Lei de Zeus”, que evoca, em muitos aspectos, os princípios cristãos (“Fui peregrino e me acolheste”, Mt 25,35; “O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”, Mt 25,40). Porém, Nolan considera que a ideia de um processo de expiação pelo pecado cometido e a valorização de princípios cristãos é algo que os espectadores veem ao se depararem com o filme – algo que está em nós, não obrigatoriamente no filme.
A Odisseia, de Nolan, mais do que uma obra “cristianizada”, é uma demonstração de como nossa cultura, mesmo quando tenta ignorar o Cristianismo, ainda respira seus valores. Não por uma reminiscência do passado, mas porque esses valores correspondem profundamente ao nosso coração. Afinal, quem – religioso ou ateu – nunca se deparou, em um momento de introspecção, com as consequências dos erros do passado e o desejo de redenção?


