A paradoxal bênção do martírio

Nos tempos atuais, o martírio parece apenas um sofrimento ao qual nenhum ser humano deveria ser submetido. Contudo, é a via mais extremada do seguimento e da entrega de si a Cristo. Como poderia uma filósofa contemporânea descobrir na cruz o sentido último de sua vida, o amor apaixonado buscado por todos os seres humanos?

A paradoxal bênção do martírio, Jornal O São Paulo

Com o crescimento dos estudos sobre Edith Stein, muito se fala sobre sua Filosofia, sua relação com Edmund Husserl e São Tomás de Aquino, ou, do ponto de vista mais biográfico, de sua origem judaica e da prematura morte em um campo de concentração nazista; contudo, em meio ao “tsunâmi de informações” que toma a atenção dos interessados em Stein, dá-se, muitas vezes, pouca atenção à sua vida interior. O livro Edith Stein: a abençoada pela cruz, de Elisabeth Kawa, publicado pela Editora Quadrante, supre essa carência.

A autora, ainda na introdução, mostra a sensibilidade espiritual que regerá as páginas restantes, ao indicar que Santa Teresa Benedita da Cruz (nome adotado por Edith Stein ao entrar no Carmelo), com seu martírio, realiza o sonho de Santa Teresa d’Ávila e de Rodrigo, seu irmão. Ambos, quando crianças, fugiram de casa com pretensão de entregar sua vida ao martírio, pelas mãos dos mouros; dizia a pequena de Ávila: “Pense bem, Rodrigo: para sempre! Os mártires contemplam a Deus para sempre! Precisamos ser mártires”.

Em certo sentido, como mostra a autora ao longo das páginas do livro, Teresa da Cruz entregou-se voluntária e amorosamente ao martírio, a fim de “contemplar a Deus para sempre”. Ao mesmo tempo, Irmã Benedita, como era chamada entre suas companheiras de Ordem, nutria um profundo sentido de expiação e sacrifício. Tal como Cristo, morria pelo seu povo. Diz-se que, no momento em que foi capturada pelos oficiais da S.S., disse à Rosa, sua irmã de sangue: “Vem, vamos, pelo nosso povo”.

A pequena biografia de Elisabeth Kawa cumpre bem o papel de introduzir o leitor no enredo da vida de Edith Stein, mas, sobretudo, realiza um agudo painel de sua espiritualidade, profundamente ligada à cruz, à expiação e ao abandono de si. “Ave, Crux, Spes Unica!”, repetia a Santa. Com a autora, podemos dizer que Stein amou de tal modo a Cruz que, de fato, fez dela sua vida – e talvez esse aspecto deva ser a chave interpretativa para as outras muitas facetas desta grande Santa.

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