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A responsabilidade de ver

Citar Ensaio sobre a Cegueira em um jornal católico talvez provoque algum desconforto. Não me parece um mal. A inteligência cristã não se mede pela docilidade das leituras que escolhe, mas também pela liberdade com que enfrenta as que a contrariam. O Cardeal Ravasi recordou, a propósito de Saramago, um antigo princípio latino: é lícito aprender até de um adversário.

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SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. 

José Saramago não figura entre os escritores a quem volto por afinidade. Volto, quando volto, por necessidade. Há autores que nos acompanham; outros nos acuam. Saramago pertence, para mim, à segunda espécie.

Talvez seja exatamente este o caso. Saramago foi um adversário declarado da Igreja e do Cristianismo institucional, e esse traço não deve ser apagado por ecumenismos preguiçosos. Houve atritos públicos, livros agressivos, declarações hostis. Nada disso, porém, dispensa o leitor sério de reconhecer que um escritor pode errar sobre a Igreja e ainda assim tocar, com lucidez incômoda, alguma verdade sobre o homem. São coisas diferentes: a autoridade teológica e a capacidade de observação moral. Saramago não tinha a primeira; tinha, em grau notável, a segunda.

Ensaio sobre a Cegueira permanece, nesse sentido, como um romance de alta voltagem moral. A epidemia de cegueira branca que dissolve a vida comum não serve apenas de artifício narrativo; funciona como metáfora de uma cegueira ética, política e espiritual que já estava instalada antes de qualquer contágio. O colapso da ordem, a regressão da convivência, a violência que sobe à superfí-cie e a dificuldade de preservar a compaixão fazem do romance menos uma fantasia do desastre do que uma anatomia da civilização despojada de si mesma.

Foi aí que o livro me alcançou. Não porque me reconciliou com o estilo de Saramago, que ainda me é custoso, mas porque me obrigou a reconhecer uma evidência severa: a pior cegueira nem sempre é a dos olhos, mas a da consciência que se habituou a não reparar. Essa é a força daquela advertência inicial do romance: ver não basta; é preciso reparar. E reparar é, em si mesmo, um ato moral.

O Cardeal Gianfranco Ravasi, que foi Presidente do Pontifício Conselho da Cultura (atual Dicastério para a Cultura e a Educação), considerou, ao ler o romance, que Ensaio sobre a Cegueira é um poderoso texto sobre a redenção, alimentado por temas evangélicos ligados à cegueira e à visão espiritual. A formulação é preciosa porque recusa tanto a canonização apressada de Saramago quanto sua recusa tribal. O romance não precisa tornar-se ortodoxo para poder ser levado a sério por um leitor cristão. Basta reconhecer que há livros escritos contra nós que, no entanto, nos ajudam a ver melhor. Às vezes, o adversário percebe o que o amigo poupa.

É aqui que a leitura católica começa a tornar-se fecunda. O romance não oferece transcendência; oferece, antes, um cenário de desnudamento, no qual o homem aparece despojado de aparências e entregue à prova do que realmente ama. E, no entanto, justamente aí, ele reencontra algo que o Cristianismo jamais deixou de saber: quando a dignidade humana se eclipsa, a barbárie já começou; quando o outro deixa de ser próximo e se torna obstáculo, a barbá-rie já não precisa de desculpa.

Saramago não oferece saída. Não consola, não redime, não promete claridade depois do escuro. Mas faz algo que talvez seja mais difícil: devolve ao leitor a pergunta que ele preferia não fazer. Não sobre os cegos do romance, mas sobre si mesmo, no exato instante em que fecha o livro e ergue os olhos para o mundo ao redor.

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