Apressemo-nos para amar

Apressemo-nos para amar, Jornal O São Paulo
Fonte: pxhere

Apressemo-nos para amar, as pessoas se vão tão cedo,
delas restam apenas um par de sapatos e um telefone mudo.
Só o fútil se arrasta pesadamente,
o essencial é tão rápido que acontece de improviso
e logo um silêncio normal e, portanto, insuportável,
como a castidade nascida simplesmente do desespero
quando pensamos em alguém depois de tê-lo perdido.

Não tenhas certeza de que tens tempo, a segurança é insegura,
tira nossa sensibilidade como qualquer fortuna,
chega simultaneamente como o
pathos e o humor,
como duas paixões uma mais débil que outra
que se vão tão rápido como cala o sabiá em julho,
como um som um pouco estranho ou uma reverência seca.

Para se ver de verdade, fecham-se os olhos.
Se bem que é mais arriscado nascer do que morrer,
amamos sempre pouco e demasiado tarde.
Não escrevas sobre isso com frequência,
mas de uma vez por todas
e serás como um delfim bondoso e forte.

Apressemo-nos para amar, as pessoas se vão tão rápido
e aqueles que não se vão, nem sempre retornam
e ao falar do amor nunca se sabe se o primeiro
é o último ou o último, o primeiro.


(Jan Twardowski*, Apressemo-nos a amar)

Quem de nós não foi obrigado pela vida a se curvar diante do caixão de uma pessoa amada? Tivemos que cumprimentar pais, avós, filhos com um último gesto de amor…. A morte tirou de nossas vidas pessoas quando menos esperávamos... Tirou-as por vezes depois de uma longa doença ou de uma velhice difícil, mas outras vezes também de repente, por acidente ou infarto... Vem com gritos altos ou em silêncio total …. Ó morte! Quanto dói, quanta divisão traz entre amigos, quantas separações dolorosas nas famílias! Restam apenas o vazio, o silêncio, as lágrimas... E a pergunta: por quê?

Com a morte a vida cessa, mas não a existência. O corpo volta à terra, mas a alma volta ao Pai, à sua morada no Céu, volta ao Amor. A morte, então, essa rainha cruel, pode se tornar Irmã Morte como São Francisco a chamava. Foi Cristo quem nos deu a esperança, a única força capaz de enfrentar o luto porque nos abre à ressurreição. Com sua morte, Ele venceu a nossa morte e nos precedeu na ressurreição dos mortos.

Para nós que confiamos Nele, uma grande luz e uma grande força se abrem ao amor. Elas nos impelem a se apressar a amar as pessoas que temos ao nosso lado no nosso cotidiano: pais, filhos, avós, marido, mulher... Caso contrário, só teremos as lembranças e os remorsos de gestos inacabados, palavras não ditas ou ditas mal... As pessoas vão-se sempre muito cedo. Não temos tempo e estamos sempre atrasados com o amor. A segurança de ter tempo tira nossa sensibilidade ao dom diário e silencioso de nossos entes queridos. Temos a certeza de encontrá-los amanhã, dentro de uma hora... Nós os tratamos como se fossem nossos... Temos certeza de que os temos – e nossos gestos, nossas ações, nossas palavras ficam desprovidas daquela incerteza e delicadeza dos amantes quando gozam e ficam maravilhados com a presença do outro. Amantes que aproveitam cada momento para agradar um ao outro, para se contemplar reciprocamente.

São necessárias a humildade e a simplicidade de coração para reconhecer que cada pessoa por quem experimentamos afeto e amor é dom que o Senhor nos dá. Peçamos ao Senhor a graça de poder aceitar como seu dom o nos surpreendermos amando alguém, e viver nossos afetos com reverência, respeito e verdadeira doação de si.

Seria muito bom que, ao nos colocarmos diante do caixão, só pudéssemos agradecer os momentos maravilhosos que passamos juntos e deixar nosso ente querido partir em paz para o Amor. Seria muito bom poder dizer aos nossos falecidos: agradeço-vos porque nos amamos.

* Jan Twardowski (1915 – 2006) foi um poeta e padre católico, considerado o principal representante polonês da literatura religiosa contemporânea. Escreveu poemas curtos e simples, bem-humorados, que geralmente incluíam coloquialismos, unindo observações da natureza com reflexões filosóficas

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