As apostas on-line deixaram de ser hábito marginal para se tornar fenômeno de massa no Brasil, movimentando fortunas e alcançando milhões de famílias. Nesta edição do Caderno Fé e Cultura, reunimos olhares complementares sobre esse fato: suas raízes históricas e psicológicas, os mecanismos que alimentam o vício, os impactos econômicos e sociais, os dilemas éticos da regulação e os caminhos possíveis para prevenção e educação. Um convite a compreender, em uma perspectiva integral, o que está em jogo para a sociedade e para cada família.

A maioria dos leitores há de se lembrar de um tempo em que ver adolescentes de 16 anos fumando pelas ruas e festas era corriqueiro, em que uma criança podia caminhar sozinha até a venda para comprar cigarro ou cerveja para os pais. Álcool e cigarro eram consumidos de forma ostensiva, amparados pelas vultosas quantias que seus produtores gastavam em propaganda nas diferentes mídias.
Ambas as cenas se tornaram quase inaceitáveis hoje – uma mudança que não foi acidental, mas fruto de ações da sociedade civil e do poder público. O cigarro perdeu o status de símbolo e se tornou mau hábito. Ninguém mais desconhece seus malefícios. Proibimos a publicidade, obrigamos advertências nas embalagens e vetamos o consumo em locais fechados. Mesmo o dano aos não fumantes, antes tolerado, deixou de ser.
Com o álcool, a droga que mais mata no Brasil e no mundo, seguimos um caminho diferente: proibimos a compra por menores e criamos o bafômetro e as blitze para conter a tragédia no trânsito. Além disso, o vício em álcool costuma ser perceptível e abala depressa a quem bebe, com consequências imediatas. Há lugar e hora para beber, e não é usual fazê-lo durante o trabalho, em uma fila de espera ou no transporte público. As novas gerações, além disso, bebem cada vez menos: entre os jovens de 18 a 24 anos, a abstinência saltou de 46% para 64% em dois anos, enquanto o consumo de cervejas sem álcool triplicou.
Em um passado recente, o Brasil viu surgir um vício antes inacessível, capaz de arruinar a saúde financeira, física e relacional das vítimas. Legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023 – mas fiscalizadas só a partir de 2025 – sob promessa de aumento da arrecadação e combate ao crime organizado, as casas de apostas on-line dominaram o horário nobre e o streaming, sequestrando o futebol, paixão nacional, e os perfis de jogadores, artistas e influenciadores.
Seria reducionista atribuir às bets o endividamento das famílias, que bateu recorde histórico e tem raízes anteriores às apostas. Ainda assim, o hábito disputa o orçamento doméstico: 23% dos apostadores deixaram de comprar roupas e 19% cortaram gastos no supermercado. A Unifesp já estima haver 11 milhões de jogadores de risco no país. Por trás dos números, há histórias como a do auditor do Tribunal de Contas que começou a apostar em 2023 e, por quase dois anos, gastou mais de 300 mil reais, contraiu seis empréstimos e estourou quinze cartões, até recorrer à família alegando perdas na bolsa e em criptomoedas. A esposa, vendo-o dia e noite em “páginas coloridas” no celular, acreditou; a irmã chegou a suspeitar de drogas pesadas. Ninguém decifrou os sinais. Em dezembro de 2025, com 1,5 milhão em dívidas, tirou a própria vida, deixando mulher e filha de seis anos.
Está aí a tenebrosa vantagem das bets frente ao álcool e ao cigarro: hospedadas em smartphones, não são percebidas como mal objetivo. Sentimos o cheiro do cigarro de imediato; mas o apostador pode definhar atrás de uma tela à vista de todos. A cultura das apostas retroalimenta-se do isolamento: quanto mais sós, mais recorremos a telas digitais. Se a bebida se vende como experiência gastronômica ou bom humor ocasional, as apostas se vendem como diversão inócua, quando, na verdade, são uma tentação muito mais insidiosa. Tudo sob a proteção tão inútil quanto o “jogue com responsabilidade”, versão apostadora do “beba com moderação”. Ninguém bebeu com parcimônia por uma voz abafada em algum lugar, de modo que as advertências recém-aprovadas, como “apostar pode causar dependência” e variantes, não passam de avanço tímido.
Se hoje vemos álcool e tabaco com outros olhos, não foi por ações mínimas, de fachada, mas por décadas de campanhas e construção coletiva de uma consciência social. Com as bets, seguimos no sentido oposto: em vez de desnaturalizar o vício, o entronizamos — no horário nobre, na narração dos gols, no peito de ídolos infantis, com a bênção do Estado que delas arrecada. Enquanto tratarmos o problema como fatalidade do mercado, e não como a epidemia que é, continuaremos perdendo a guerra contra um dos maiores inimigos das famílias brasileiras — que só será vencida quando o reconhecermos como tal.


