Logo do Jornal O São Paulo Logo do Jornal O São Paulo

Cláudio Pastro: a riqueza da Tradição encontra a arte contemporânea

Uma obra destinada a permanecer como marca da Beleza no contexto cultural de nossa época.

Cláudio Pastro: a riqueza da Tradição encontra a arte contemporânea - Jornal O São Paulo
Cláudio Pastro, São Bento e Santa Escolástica. Desenho sobre concreto, Igreja Abacial do Mosteiro Nossa Senhora da Paz (1984)
Acervo C.Pastro

Quem entra pela primeira vez em uma das igrejas decoradas por Cláudio Pastro costuma ter uma sensação ambígua. As cores são vibrantes – ouro, branco, azul profundo; a luz é calma; o silêncio é convidativo. Mas, para o público habituado à estética barroca ou neoclássica de nossas igrejas, há algo estranho: os rostos das figuras não expressam sofrimento nem êxtase, os corpos aparecem simplificados, com traços quase infantis, não obedecendo à perspectiva tradicional. Contudo, aqueles acostumados com os grandes mestres modernistas, como Di Cavalcanti ou Portinari, ou com os ícones e afrescos dos primeiros séculos do Cristianismo perceberão um diálogo entre experiência mística e visão estética.

Pastro não fazia arte religiosa devocional – aquela que busca comover pela beleza humana e realismo, popularizada no mundo católico a partir do Barroco. Fazia arte de culto, que visa a apontar para o Mistério. O fiel deve encontrar não suas dores retratadas, mas aquele totalmente Outro, trazido para a objetividade luminosa do Amor. O artista, com sua sensibilidade e capacidade, não é o criador da obra, mas apenas o instrumento pelo qual esse Outro doa sua beleza ao mundo. O fiel, ao contemplar a obra, mais do que ver suas dores, sofrimentos e esperanças retratadas em Cristo ou nos santos, deve encontrar este totalmente Outro, que não responde mergulhando o crente na própria subjetividade, mas trazendo-o para fora, para a objetividade luminosa do Amor.

A arte de Pastro, para surpresa de muitos, é ainda mais tradicional do que a arte devocional, deitando raízes nos primeiros séculos do Cristianismo. Seu trabalho nasceu da escuta ao Concílio Vaticano II, que pediu à Igreja um retorno às fontes originais da fé. A arte moderna, ao abandonar a estética renascentista, deu a ele o ambiente ideal para essa recuperação. Em suas obras, o ícone dos primeiros séculos e da tradição católica oriental, com sua imagem repleta de simbologia, que abre uma “janela para o Mistério”, se encontra com a cor pura, chapada e as formas reduzidas a traços essenciais da vanguarda modernista. Ele sabia que o realismo mostra a capacidade do artista, mas o símbolo remete àquilo que transcende o humano.

A trajetória percorrida. Cláudio Pastro evolui de uma criação que lembra a arte moderna primitivista para outra que se aproxima cada vez mais da solenidade tranquila, que remete ao sagrado, dos ícones dos primeiros séculos. O simbolismo não muda, ainda que se torne mais diversificado e requintado, as cores permanecem vibrantes, porém o branco e o dourado, sinais da pureza e da luz de Deus, se tornam cada vez mais dominantes. Os materiais também mudam. A cerâmica das primeiras criações cede lugar ao azulejo colorido – que recupera a tradição azulejista ibérica, além de mais resistentes e duráveis.

Nas suas obras em cores, Cristo e os santos são morenos, como seriam os judeus sujeitos à inclemência do sol na Palestina dos tempos de Jesus; e como morena é a maioria do povo cristão brasileiro. Descendente de italianos de pele clara e olhos azuis, Pastro não era populista ou ideológico, mas sua arte era profundamente impregnada pelo contato com esse povo. O episódio mais clamoroso dessa imersão na sua gente aconteceu quando pintava a Basílica de Aparecida. Estava trabalhando em um painel quando chegou uma mulher simples que, com gesto acanhado, doou um envelope, dizendo: “Eis um pequeno dinheiro da venda de minhas galinhas e seus ovos, que juntei durante dois anos e que agora ofereço a Nossa Senhora”. Cláudio imediatamente a pintou entre os peregrinos, imortalizando sua fé e sua oferta simples, paradigma para todo um povo.

O olhar é um dos traços mais característicos de suas obras. Nos primeiros tempos, os olhos são grandes e abertos, como que cativados e fascinados pelo Presença diante deles. Mas, para quem acompanhou seus primeiros anos, quando se dedicava a trabalhos sociais na periferia de São Paulo, é difícil não reconhecer nestes rostos os olhos arregalados das crianças morenas da favela, que junto dele iam descobrindo a beleza do mundo… Posteriormente, os olhos vão ficando mais semelhantes aos dos ícones. Menos dilatados, igualmente atentos e abertos ao infinito, continuam como “janelas que se abrem para o Mistério”, mas agora transmitem serenidade e paz, convidando a uma intimidade com Deus.

Na primeira fase, as mãos e os pés são caracteristicamente grandes. As mãos, frequentemente em posição de oração ou adoração, reforçam o vínculo sagrado, já presente no olhar – e permanecerão nessa postura também nas obras posteriores. Os pés indicam tanto o caráter peregrino da vida humana, que caminha à procura do Pai, quanto a missão do santo, que caminha no mundo para testemunhar Cristo a seus irmãos.

Figuras que refletiam a natureza e a cultura do povo brasileiro (como os grafismos indígenas, as formas africanas) eram frequentes em suas obras. Não se tratava de folclore ou exotismo. Era a convicção, profundamente ancorada na teologia, de que se Cristo assumiu a natureza humana, então toda cultura, toda expressão artística, pode ser assumida e transfigurada por Ele. Assim como a arte bizantina expressou a fé com o vocabulário greco-romano, a arte sacra brasileira deveria fazê-lo com o vocabulário cultural dos povos que formaram o Brasil.

Apesar da rica simbologia e do sofisticado diálogo com a tradição artística dos primeiros séculos e a arte moderna, a arte de Cláudio Pastro foi profundamente popular. Não usou os símbolos e cores de forma hermética, mas procurou aquilo que ia impactar a pessoa, ajudando-a a penetrar mais no Mistério, mesmo que sem uma reflexão intencional. Queria que sua obra fosse uma Bíblia pauperum, como eram chamadas as pinturas das igrejas medievais, pois apresentavam a Bíblia ao povo. Queria que a pessoa simples, mas de coração aberto, ao adentrar em uma igreja tivesse um vislumbre do Paraíso, uma intuição da Eterna Beleza que nos aguarda no Amor.

Cláudio Pastro: a riqueza da Tradição encontra a arte contemporânea - Jornal O São Paulo
Cláudio Pastro: a riqueza da Tradição encontra a arte contemporânea - Jornal O São Paulo

A simplicidade que conduz ao Mistério

As obras mostradas nestas páginas dão uma ideia da diversidade e da evolução da arte de Cláudio Pastro:

01. A palavra se fez carne. Incisão em couro (década de 1970). Foi transformada em cartão postal e amplamente reproduzida na Itália, na Alemanha e no Brasil.

02. Mãe da Trapa. Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo (Campo do Tenente/PR, 1983).

03. Ressuscitou. Detalhe de Sacrário em cerâmica, Mosteiro Nossa Senhora da Paz (Itapecerica da Serra/SP 1984).

04. Fuga da Sagrada Família. Detalhe de Painel, Igreja São José Operário (Jundiaí/SP, 1994).

05. A criação. Detalhe do Painel A História da Salvação, Igreja do Colégio Santo Américo (São Paulo/SP, 1980–1982).

06. Apresentação de Jesus no Templo. Painel, Mosteiro do Encontro (Curitiba/PR, 1982).

07. Sagrada Família. Detalhe de Painel, Catedral da Sagrada Família (São Paulo/SP, 1997).

08. O peregrino. Estátua em metal (Rota de peregrinação em Weingarten, Alemanha, 2008).

09. Maria com o Menino. Painel, Mosteiro Nossa Senhora da Paz (Itapecerica da Serra/SP, 2001).

10. Raboni (Mestre, Jo 20,16). Cartão postal a partir de obra no Mosteiro Nossa Senhora da Paz (Itapecerica da Serra/SP, 2002).

11. Cântico dos Cânticos. Azulejo (São Paulo/SP, 2005).

12. A vendedora de ovos. Torre Brasil (Basílica de Nossa Senhora de Aparecida).

13. Pantocrator. Painel em azulejo, Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Osasco/SP, 2014).

14 Pantocrator. Detalhe do retábulo da Igreja 

e do Mosteiro Nossa Senhora da Paz (Itapecerica 

15. da Serra/SP, realizado em 1984 e refeito em 2002, mostram a evolução da obra do artista).

Créditos: Acervo C.Pastro/Mosteiro Nossa Senhora da Paz, Francisco Borba Ribeiro Neto (1 e 11), Wikimedia (8), Padre Valdivino Guimarães, C.Ss.R (12) e José Roberto Kerr (15).

Deixe um comentário