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Das Confissões à Cidade de Deus

Seja na dimensão existencial, seja na dimensão política, Santo Agostinho deixou um caminho seguro a ser seguido pelos cristãos. 

Das Confissões à Cidade de Deus - Jornal O São Paulo
Iluminura medieval adaptada por inteligência artificial (Gemini)

Talentoso e ambicioso, Santo Agostinho (354 – 430), antes de se tornar padre e bispo, foi um homem de prazeres intensos e dividido entre ceticismo e fome espiritual. Viveu mais de dez anos em união estável com uma mulher, com quem chegou a ter um filho. Mônica, sua mãe, cristã devota, passou 20 anos rezando por sua conversão, sendo modelo das mães que intercedem pelos filhos.

Tendo ido para Milão, para ser professor de retórica, ouviu as pregações do bispo Santo Ambrósio, que lhe abriu caminho para a fé. A conversão veio em um momento de desespero por sua própria hesitação, quando ouviu “toma e lê” e abriu, porque era o texto mais próximo, Romanos (13,13-14), lendo: “Não em orgias e bebedeiras […] revesti-vos antes do Senhor Jesus Cristo”.

Agostinho leu sua conversão não como uma decisão que tomou sozinho, mas como um dom que recebeu antes de merecer. Anos depois, já bispo, sistematizaria essa percepção em uma teologia da gra-ça, elaborada principalmente contra a heresia pelagiana, para a qual a vontade humana, por si só, tem a capacidade de escolher o bem e alcançar a salvação. Agostinho entendeu a graça como iniciativa gratuita de Deus, que precede e sustenta a resposta humana sem substituí-la: a pessoa permanece livre para acolhê-la ou resistir a ela – ideia que ecoa na Evangelii gaudium, de Francisco, quando descreve uma Igreja que “primeireia” precisamente porque primeiro experimentou que “o Senhor tomou a iniciativa” e a amou antes (EG 24, citando 1Jo 4,10).

Já bispo de Hipona, escreveu Confissões. A obra inteira é enquadrada, logo no início, pela frase célebre: “Fizeste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”. Muitos, ao longo da história, viram o livro como moralista, centrado no remorso pelo pecado cometido. Confissões, porém, mais do que sobre o pecado, é sobre o amor imerecido e seu poder salvífico: Agostinho mostra a feiura do pecado para exaltar a beleza da graça.

Herdou, como bispo, um cisma já antigo no Norte da África: os donatistas negavam a validade aos sacramentos celebrados por padres que haviam traído a fé sob perseguição. Contra eles, Agostinho fixou o princípio de que a eficácia do sacramento vem de Cristo, não da santidade do ministro que o celebra. Da mesma polêmica nasce sua imagem da Igreja como totus Christus: um único corpo, cabeça e membros, unido pela caridade e não pela pureza individual de cada fiel.

Quando Roma foi saqueada pelos visigodos, em 410, a aristocracia pagã romana atribuiu a desgraça ao abandono dos deuses antigos e do cultivo das virtudes militares e da força, em prol da ética cristã, voltada à caridade e à humildade. Agostinho respondeu com o clássico A Cidade de Deus, em que argumenta que virtudes sem caridade podem produzir bens temporais, mas não constituem verdadeira justiça nem merecem a salvação. A ética da força, mesmo quando traz frutos reais, não forma uma comunidade tão duradoura como a ética da caridade, ordenada a Deus. Além disso, a obra traça a distinção entre duas comunidades, que vivem misturadas no mundo, definidas por dois amores opostos – o amor a Deus até o esquecimento de si (a cidade de Deus) e o amor a si até o esquecimento de Deus (a cidade terrena). Como essas duas cidades não são impérios nem instituições, mas orientações fundamentais do amor, a pergunta que Agostinho deixou não envelheceu junto com Roma: para qual delas nosso coração está ordenado?

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