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De Agostinho a Leão XIV: no amor, uma Igreja firme e humilde



Na sua primeira bênção Urbi et Orbi, em 8 de maio de 2025, Leão XIV apresentou-se afirmando: “Sou agostiniano, um filho de Santo Agostinho, que dizia: Convosco sou cristão e para vós sou bispo”. A citação não foi de um momento isolado: desde então, o Papa tem reiteradas vezes citado Santo Agostinho. Repetem-se alguns motivos – amor, escuta, humildade, unidade e autoridade como serviço – que o próprio Pontífice associa à tradição do santo de Hipona. Seguindo particularmente as mensagens endereçadas a seus irmãos agostinianos, é possível encontrar uma visão de Igreja fundada na experiência daqueles que sabem que “nosso coração está inquieto enquanto não repousa Nele”.

De Agostinho a Leão XIV: no amor, uma Igreja firme e humilde - Jornal O São Paulo
Arte: Sergio Ricciuto Conte

 Leão XIV, em um discurso ao Capítulo Geral da Ordem, lembra uma passagem de Santo Agostinho: “Amai o que sereis”. E continua lembrando que a formação religiosa não é “um conjunto de regras a observar ou de coisas a fazer ou, ainda, como um hábito já confeccionado para ser usado passivamente… [A vocação cristã] nasce somente quando se sente a atração por algo grande, de um amor que pode nutrir e saciar o coração”. Retoma, dessa forma, em chave agostiniana, um dos pontos centrais – se não o mais central – do magistério dos papas recentes: o Cristianismo nasce de um encontro, do fascínio despertado pela companhia de Cristo; não da adesão formal a normas ou costumes.

A missa de abertura deste mesmo Capítulo Geral foi, conforme é feito frequentemente em ocasiões como esta, uma celebração votiva ao Espírito Santo. Comentando a liturgia do dia, o Papa indicava três “sugestões” que podem orientar o caminho da Igreja: escuta, humildade e unidade. Vincula a escuta e a humildade ao dizer: “O Espírito Santo fala hoje, como no passado. Ele fala no penetralia cordis (profundezas do coração) e por meio dos irmãos e das circunstâncias da vida. Por isso, é importante que o clima do Capítulo, em harmonia com a tradição secular da Igreja, seja um clima de escuta, escuta de Deus, escuta dos outros […] Santo Agostinho, comentando a variedade das formas com que o Espírito Santo, ao longo dos séculos, se derramou sobre o mundo, interpreta essa multiplicida-de como um convite para nos tornarmos pequenos diante da liberdade e do mistério insondável da ação de Deus. Ninguém pense ter todas as respostas. Cada um partilhe com abertura o que tem. Todos acolham com fé o que o Senhor inspira, conscientes de que ‘quanto os céus estão elevados acima da terra’ (Is 55, 9), tanto os seus caminhos se elevam acima dos nossos caminhos e os seus pensamentos acima dos nossos pensamentos”. 

Aqueles que, com humildade, se põem em uma postura de escuta, encontram na unidade “um objetivo irrenunciável” e “o critério de verificação do agir e trabalhar em conjunto, porque o que une vem Dele, mas o que divide não pode vir Dele”. E, citando mais uma vez Santo Agostinho, Leão XIV conclui: “Tereis o Espírito Santo quando consentirdes que o vosso coração se entregue à unidade por meio de uma caridade sincera”.

A ênfase na humildade se manifesta, ainda, em sua visão sobre o papel da autoridade – tema ao qual se dedicou em sua tese de doutorado, The office and authority of the Local Prior in the Order of Saint Augustine (O ofício e a autoridade do Prior Local na Ordem de Santo Agostinho). Falando aos bispos recém-ordenados, Leão XIV declara: “Àqueles que Jesus chama como discípulos e anunciadores do Evangelho, em particular aos Doze, é pedida a liberdade interior, a pobreza de espírito e a disponibilidade para o serviço que nasce do amor, para encarnar a mesma escolha de Jesus, que se fez pobre para nos enriquecer (cf. 2Cor 8,9). Ele manifestou-nos o estilo de Deus, que não se revela a nós no poder, mas no amor de um Pai que nos chama à comunhão com Ele […] Agostinho afirma: ‘Em primeiro lugar, quem preside o povo deve compreender que é servo de muitos’ [… Recordemos a advertência do Senhor] ‘Quem quiser ser grande entre vós, faça-se Vosso servo, e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se escravo de todos’ (Mc 10,43-44)”.

É nesse ponto que a linguagem agostiniana de Leão XIV ilumina o tema da sinodalidade, herdado do pontificado anterior. Ao encerrar o Consistório Extraordinário de 2026, Leão XIV sublinha que “a interroga-ção da sinodalidade não é sobretudo: quem tem o poder de decidir? A pergunta é mais profunda: como conservamos juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja? Quando esta questão se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram o seu devido lugar, iluminadas pela missão e fidelidade comum ao Evangelho”. No Meeting de Rimini de 2026, declarou: “A sinodalidade não é o nome de um processo, mas a natureza de um povo que, na amizade e no encontro com o outro, reconhece a sua pertença exclusiva a Deus”. Em tudo, a mesma escuta, a mesma humildade, a mesma unidade sem uniformidade que Agostinho ensinou a comunidades de Hipona, propostas agora como hábito de um povo inteiro.

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