Edith Stein, brisa de humanidade arejando uma razão reduzida e sufocante

Edith Stein, brisa de humanidade arejando uma razão reduzida e sufocante, Jornal O São Paulo

Atualmente, na cidade de São Paulo, nenhuma personalidade intelectual católica está tão presente nas reflexões acadêmicas e na espiritualidade de grupos e movimentos como Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz, 12 de outubro de 1891 – 9 de agosto de 1942), filósofa e monja carmelita, santa católica de origem judia, morta num campo de concentração nazista, mártir da Igreja. Sua influência é cada vez mais sentida, tanto pela riqueza de seu pensamento quanto pela profundidade de sua fé e o testemunho de sua vida.

O mundo universitário está repleto de pensadores brilhantes, com vidas decepcionantes, a militância social e política frequentemente nos brinda com vidas exemplares, mas com ideias sofríveis – não são muito comuns os casos de personalidades que combinam pensamentos brilhantes com vidas exemplares. Os intelectuais que foram canonizados, como Edith Stein, quase sempre nos dão justamente um exemplo dessa síntese em que tanto a vida quanto o pensamento nos fascinam.

Edith Stein viveu num período marcado tanto pelo êxito quanto pela tragédia tanto do racionalismo quanto do empirismo modernos. Com o avanço da ciência, a razão humana e o método experimental haviam conseguido seus maiores feitos em toda a história da humanidade. Mas, ao mesmo tempo, nunca antes a guerra e a morte haviam sido tão cientificamente calculadas. A razão e a ciência pareciam cada vez mais demonstrar que o ser humano era um feixe de instintos socialmente condicionado. A racionalidade científica, ao mostrar toda a sua força, exibia também seu grande limite. Max Weber (1864-1920), no clássico A ciência como vocação, de 1919, já citava Tolstói: “A ciência carece de sentido, pois não tem resposta alguma para a única questão que nos interessa: que devemos fazer? como devemos viver?”.

O desencanto com a ciência e a racionalidade modernas já se desenhara no século XIX, particularmente com o movimento romântico, e continuou ao longo de todo o século XX e XXI. Transparece nos movimentos contraculturais, no interesse pela “inteligência emocional”, nos questionamentos ao próprio discernimento racional da realidade. A razão, cada vez mais, não era vista como janela aberta que permitia o acesso ao real, mas, sim, como quarto fechado e abafado, em que a própria realidade e a consciência humana eram presas e sufocadas pelo ar saturado de uma lógica formalista e insensível.

O pensamento cristão frequentemente se tornou também ele vítima dessa razão sufocante, na verdade uma pálida redução da verdadeira Razão que move o cosmo. A normatividade e os princípios cristalizados, não importa se justos ou injustos, pareciam não transmitir aquela riqueza de compreensão e afeto pela qual todo coração humano anseia. Nesse contexto, para muitos, Edith Stein vem sendo uma brisa de humanidade a refrescar o quartinho abafado em que a razão parecia estar confinada.

A Fenomenologia, linha filosófica à qual aderiu, já representa uma das mais importantes tentativas modernas de superação dos limites de uma razão redutiva, que não se encontra mais com a realidade mesma, pois só consegue ver simulacros do real construídos intelectualmente. Mas, seria a própria Fenomenologia capaz de descobrir o Amor que, simultaneamente, se revela e se oculta tanto na grandeza do cosmo quanto na banalidade do cotidiano? A graça do encontro, o discipulado espiritual que ultrapassa a barreira do tempo e aproxima as duas Teresas, aquela que viveu em Ávila no século XVI e aquela martirizada numa câmara de gás no século XX, foram fundamentais para que a Filosofia vencesse seus limites e a mística revelasse a verdade que se esconde no real.

Essa é a grandiosidade que Edith Stein, Santa Teresa Benedita da Cruz, irradia para tantos que a têm seguido, como pensadora e como santa. Nesse Caderno Fé e Cultura, a filósofa Maria Cecília I. Parise, a psicóloga Sonia Maria B. A. Parente e a pedagoga Magna Celi M. da Rocha escrevem sobre o impacto do encontro com Edith Stein em suas vidas e em sua atividade profissional, enquanto Marcelo C. de Araújo comenta a experiência de conversão da Santa.

Mas grandes mestres precisam de grandes discípulos para serem reconhecidos. Edith Stein não teria se tornando tão importante em São Paulo e no Brasil sem a contribuição da Profa. Angela Alles Bello, da Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma, e da Irmã Jacinta Turolo Garcia, do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus (IASCJ). Ambas circularam por mais de 20 anos pelas universidades brasileiras, difundindo a obra de Edith Stein e orientando acadêmicos que se interessavam pelo pensamento filosófico da Santa. Com gratidão, o Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP dedica a elas a edição deste pequeno Caderno.

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