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Ira, o pecado que cega

Criado livre para amar, o ser humano também carrega em si a possibilidade de reagir com fúria diante daquilo que vê como ameaçador. Entre a liberdade e o instinto, a ira pode ser apenas emoção ou tornar-se um perigoso pecado.

Ira, o pecado que cega - Jornal O São Paulo
BOSCH, H. Cristo carregando a cruz (detalhe). Fonte: Wikimedia/Commons

Quando reflito sobre o ser humano, fico extasiado em constatar a maravilha que somos, um complexo físico, psicológico e espiritual. E aí só posso exaltar, como o salmista, a Sabedoria imensa de nosso Criador: “Eu vos louvarei, Senhor, de todo o coração, todas as vos-sas maravilhas narrarei.” (Sl 9,2-3)

Entretanto, nós não viemos para a vida completos. Faz parte de nossa missão nos construirmos, participando da criação de Deus, nos desenvolvendo.

Deus criou o ser humano com livre arbítrio, que pode levar ao bem ou ao mal. Este livre arbítrio é necessário para que possamos desenvolver a maior de todas as nossas capacidades, a de amar. Somente na liberdade conseguimos amar. Sem a liberdade não existe o amor, que é uma ação voluntária. Nós escolhemos amar. Temos uma energia que nos empurra para a manutenção da vida e para que nos desenvolvamos. E isso é dom de Deus.

No entanto, quando essas tendências são exacerbadas, tendemos àquilo que denominamos pecados capitais. A sexualidade, por exemplo, pode levar à luxúria, e o autocuidado pode levar à ira.

Na estrutura do cérebro. Há uma parte do cérebro chamada amígdala, que tem a função de olhar para todas as informações que ele recebe e se fazer uma pergunta: é uma ameaça, é algo com que devo me preocupar? Esta parte do cérebro pode dominar a restante com uma fúria incontrolável. Quando há a percepção de perigo, o corpo reage em cascata, aumentando os batimentos cardíacos, a pressão sanguínea e a transpiração: está se preparando para lutar ou fugir. A amígdala é uma parte primitiva do cérebro. Ela existe porque o cérebro humano é feito de camadas que se sobrepuseram às anteriores em milhões de anos de evolução. Ela cria uma reação imediata contra uma ameaça: lutar ou fugir.

Os seres humanos, porém, desenvolveram outra parte do cérebro, os lóbulos frontais, que funcionam como freio da amígdala. O motor da reação à ameaça é a amígdala, seu freio é o lóbulo frontal. A pessoa que foi dominada pela ira fica temporariamente insana até que sua amígdala seja controlada.

Tempos intranquilos. É normal ouvirmos que vivemos no período mais agitado da humanidade. Mas este estado de agitação não é característica exclusiva dos nossos tempos. Relatos de 2,3 mil anos atrás já indagavam: “Por que esta agitação dos povos e este rosnar inútil das nações?” (Sl 2,1). Consegue imaginar como era a vida naquele tempo? Como se vivia o ritmo das coisas, a velocidade com que as notícias circulavam? O salmista expressa um estado de estresse: “agitação dos povos”. Povos agitados, inquietos, ansiosos e intranquilos. Não sabemos a que fato ou situação específica, se é que existia uma, ele se referia, mas descreve um estado que nós hoje conhecemos muito bem. O salmista exaltava que a agitação era um resmungar inútil, que não servia para nada. E hoje, qual é a utilidade do nosso rosnar? Atualmente, os povos se agitam on-line. O normal da era da comunicação é a agitação permanente.

Se antes existia um perigo iminente ao se defrontar com uma fera, hoje o ser humano vive perspectivas de perigo induzidas pela comunicação social, internet, o “nós contra eles”, e assim por diante. Ou seja, nossos mecanismos de defesa estão sendo acionados o tempo todo, causando um impacto em nossa saúde psicológica. A sensação de perigo gera a raiva, importante mecanismo de reação do organismo. A raiva permanente gera o rancor, que pode desencadear a ira.

A ira pode ser o mais mortal dos pecados, o que mata. Ela nos cega. Um homem furioso não pode ver a luz. Todos ficamos furiosos às vezes. Se a ira levar à crueldade, à violência e à opressão ou perseguições, então ela é pecado; mas se for uma emoção sentida pelo indivíduo e não tiver nenhuma consequência, a ira pode ser forte, mas não é pecaminosa.

Identificamos como sendo externos os motivos que nos levam à agitação. Entretanto, boa parte desses fatores é interna e tem a ver com a situação existencial do ser humano. Diariamente, temos motivos para ficar contrariados ou irados. O problema é que se não dissiparmos esses sentimentos, eles vão se acumulando e poderão desencadear reações muitas vezes fora do controle.

Não dar lugar ao demônio. E o que nos indica o Evangelho? A nos desarmarmos pelo perdão. É a sabedoria do “perdoar setenta vezes sete”, que significa sempre, para não deixar acumular dentro de si o rancor. Na epistola aos Efésios 4,26-27, lemos: “Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento. Não deis lugar ao demônio”.

Paulo nos ensina a não acumular raiva e a resolver os conflitos diariamente, evitando que mágoas passageiras se transformem em sentimentos destrutivos de longo prazo. Dar lugar ao demônio é dividir-se interiormente e acumular tensões que podem levar à violência. A virtude que se contrapõem à ira é a mansidão. E os mansos, segundo Jesus, herdarão a terra, a boa aventurança, ou seja, a vida feliz.

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